sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Dolorida eternidade


Quando eu era criança, costumava esquivar-me da morte quando ela era o assunto a ser mencionado ou ouvido. Havia um certo pavor em pronunciar a palavra e enfrentar esta grande certeza dos seres vivos. Cresci. O que era medo e matéria de maus sonhos não me assusta mais. Porém, sem dúvida, ainda é tema de conversa e leituras.
Numa aula dias atrás, uma aluna me perguntou se eu gostaria de viver para sempre. Minha resposta foi não. A pobrezinha se assustou com minha firmeza na resposta. Os jovens alimentam uma efêmera ilusão da eternidade. Primeiro acham que a juventude é eterna. Não contentes, pensam que a vida é eterna. Mas eles crescem e vêem que a eternidade realmente é mais irreal que Papai Noel.
Na conversa que tive com a aluna, comentei com ela sobre o belíssimo romance “As intermitências da morte”, do ótimo português José Saramago. Falei sobre as reflexões sobre a morte que há no livro. Importâncias que vão desde a economia ao desejo imenso de se morrer. (um desejo suave de descanso)
Dia-a-dia convivemos com a idéia do fim. Tudo que nos rodeia parece ser um prenúncio de que um dia iremos embora também. O sol nasce e morre e nasce no dia seguinte. Somos o sol que nasceu e morreu, mas não somos o sol que volta no dia seguinte. O que volta no dia seguinte são nossos descendentes que serão a noite no final do próximo dia.
Seria muito chato e daria muito trabalho aos outros se vivêssemos duzentos ou trezentos anos ou eternamente. Uma vida com sete ou oito décadas de vida bem gozadas seria suficiente para minha estadia por aqui. Mais importante que viver, é como viver.
Estar vivo é poder olhar para o dia e saber que você faz parte dele e produz para ele. Uma inatividade, a limitação aos prazeres dos olhos, tatos e outros nossos sentidos são modelos de sepultura viva.
A eternidade é dolorida e intolerável. Que bom que inventaram a morte. A vida é mais valiosa com a existência do fim.

Vitor Miranda

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Por baixo da máscara

Os primeiros resultados da Lei Seca provocaram grande euforia em boa parte da população e imprensa. De fato, a diminuição de acidentes no trânsito é uma notícia que se deve comemorar muito. Não se pode negar que a maior importância que existe é a vida. Criar medidas para que o número de acidentes no trânsito diminua é ação esperada pela maioria da população. O que se deve tomar cuidado é como isso será ou é feito. Dar créditos totais à Lei Seca pelo baixo número de acidentes em relação aos anos anteriores é uma falha. A Lei Seca é apenas uma máscara para a real razão de mais vida e menos acidentes no trânsito.
A Lei Seca não é uma novidade. Ela já existia, apenas não era colocada em prática. Ao sair do papel, vieram os resultados. A intensa fiscalização nas cidades e rodovias está por trás da máscara. O alto número de policiais direcionado para as blitzes tornou a lei realmente efetiva. Cercado nas esquinas das cidades e nas pistas, o motorista alcoolizado é facilmente autuado. Ele enfrenta agora não apenas a lei, mas seu executor. A lei sem seu representante é apenas uma marionete sem o manipulador.
Ainda por baixo da máscara dela, está a imprensa. A intensa fiscalização encontrou na imprensa uma forte aliada para propagar a aplicabilidade da lei. A mídia, em geral, explorou e vem explorando muito o assunto. Os holofotes dela brilham quando há um alcoolizado detectado pelo bafômetro. Brilha ainda mais quando o alcoolizado é uma celebridade. Aliás, celebridade mesmo é a própria Lei Seca. Ela tornou-se motivo de espetáculo nos meios de comunicação. Um espetáculo rigoroso, buscando justiça a qualquer preço.
Esta lei, na verdade, é uma eficiência repleta de um grande rigor. Chega-se ao absurdo de alguém ser detectado mesmo usando anti-séptico bucal ou comendo alguns bombons de licor. Não há bom senso. Pagam pelo “crime” da mesma forma o alcoolizado e aquele que fez a higiene da boca com anti-séptico bucal. Sobra rigor e falta bom senso.
Não se deve insistir em não querer enxergar o que está por baixo da máscara da Lei Seca. O interesse nela não é apenas diminuir acidentes no trânsito. Há alguns envolvidos por trás que ganham com o sucesso dela. A imprensa apresenta excessivamente o assunto e lucra. O fulano e o beltrano aparecem como defensores da vida e, claro, tornam celebridades também, mesmo que por alguns mínimos segundos. A Lei Seca, assim, não é usada só com o propósito de preservar a vida. É usada com segundas intenções, e muito bem conhecidas.

Vitor Miranda

domingo, 20 de julho de 2008

Erico Verissimo


Como de costume, aos sábados à noite, recolho-me em casa. A minha cidade não é grande e não oferece opções para que eu quebre esse hábito. Creio que se ela fosse, não mudaria (é uma suposição). Para não ir cedo para cama ou não dar continuidade à leitura que faço durante o dia, vou à tv. Vejo um filme ou documentário, o noticiário esportivo ou algum telejornal. Neste terceiro sábado de julho, vi um delicioso documentário na TV Brasil. O documentário era sobre Erico Veríssimo.
Para alguém meio informado sobre literatura sabe que ele é um dos nossos maiores escritores. Li dele “Olhai os lírios do campo”, que encanta pela beleza e pelo conteúdo. A tônica do documentário foi sua, dita por muitos, obra-prima “O Tempo e o Vento”. Essa ainda não li. Ainda.
Da biografia do Erico até então, conhecia pouca coisa. Sabia que era gaúcho e pai do cronista Luis Fernando Veríssimo. Conheci fatos marcantes sobre ele.
Não só a obra dele é bela, como constatei em sua única obra que li, mas também o homem Erico. Um amante da felicidade familiar. Pai e avó dedicado, um homem que lutou para dar aos filhos o pai que não teve. Gostava de falar pouco e ouvir muito. Paradoxal, uma vez que gênio como ele deveria fazer o oposto. Mas digamos que ele economizava no diálogo e derramava todas as suas idéias e palavras em seus livros.
“O Tempo e o Vento” , como já citado anteriormente, foi o ponto principal do documentário. A beleza da obra, explicada por críticos, familiares e escritores convidados, provocou-me uma intensa vontade de lê-la. Conhecer o Capitão Rodrigo, o filho Rodrigo e toda a História – ficção que há no livro. Literatura não meramente documental, mas impregnada de arte, da arte da formação do povo do Rio Grande do Sul.
Ler o que escreveu Erico Veríssimo e ouvir pessoas falando o que ouvi sobre ele, dá a certeza de que ele é mais um daqueles escritores que fazem parte de um seleto grupo de artistas da palavra.
Quem ainda não leu nada desse grande escritor brasileiro, comece logo. Irei, em breve, começar a ler “O Tempo e o Vento”.

Vitor Miranda

sábado, 17 de maio de 2008

Interpretação de texto


Dias atrás, ao dar uma aula de Literatura sobre o Naturalismo, um aluno fez o seguinte comentário a mim: “Professor, uma coisa que não gosto de fazer é interpretação de texto. Pra que serve isso?”
A aula acabou e caminhamos juntos, cerca de cinco minutos. Nada de anormal na pergunta e opinião do garoto. Os próprios professores, muitas vezes, perguntam-se pra que ensinam certos conteúdos. Eu sou um deles. Mas vamos centralizar a questão e o texto sobre a colocação do meu aluno.
Para explicar-lhe o motivo e importância da “interpretação de texto, procurei usar um pouco de bom-humor e humor-negro. Na verdade, tornei um pouco mais jovem minha imaginação. Minha explicação e defesa sobre a importância de se interpretar um texto foram dadas pelos seguintes exemplos:
1 – Você está longe de casa e liga para sua esposa. Ao atender, você ouve uma voz de homem ao fundo e um barulho de janela se abrindo. Qual a interpretação?
2 – Você estaciona seu carro, sai e vai até uma loja. Quando volta, vê um homem com uma chave tentando abrir a porta do veículo. Você o aborda e ele diz: “Eu estava tentando ver se o carro do senhor realmente é seguro contra roubos. Qual a interpretação?
3 – Seu filho, de 15 anos, saiu de casa cedinho e voltou só à noite. Ao chegar, você nota que ele está com muita fome, olhos vermelhos e falando mole. Qual a interpretação?
4 – Sua esposa precisa que você contrate um motorista para ela. Há dois candidatos, um de 39 anos, com 20 anos de experiência como chofer, e um de 21 anos, bonito, atlético e sem nenhuma experiência com o volante. Você pede que ela escolha. Ela escolhe o de 21 anos. Qual a interpretação?
5 – No aniversário de seu filho de 7 anos, você pede que ele escolha o presente. Ele, não contente com um só, pede dois: uma Barbie e um jogo de maquiagem. Qual a interpretação?
Além das boas risadas e reflexões que tivemos, o mais importante é que ele aceitou meus exemplos e explicações. Espero que isso o ajude na Literatura, no esforço de ele conseguir entender melhor os grandes literatos, caso contrário, terei que pensar em outros exemplos.

Vitor Miranda

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Razão de Casemiro

Fui a criança deste retrato
na parede desta sala.
Hoje apenas olho nele
com lembrança esquecida
destes meus olhos gastados
em imagens e leituras:
conto, poema e romances.

Na gaveta, uma camisa
fabricada pela avó
compartilha com baratas
um repouso há vinte anos.
(é a camisa do retrato)
Como dói o tempo que foi
e não volta além da mente!

Dá saudade da escola,
do primeiro beijo em boca
de mocinha bem novinha,
da vacina de gotinhas,
da reunião familiar,
do sorvete, do algodão,
das estórias pela mãe.

Casemiro tem razão:
a querida infância acaba
sem jamais voltar com anos
que se vão e aqueles que vêm.
Ah! bondosa é só a memória:
nela somos o relógio
sem nenhum regulamento.

Vitor Miranda

domingo, 30 de dezembro de 2007

Caminhada

Quando jovens, pequenos imaturos,
atravessamos alguns terrenos cruéis.
Nele, espinhos e pedras,
há dores pela derrota sangrenta no coração.
Um sangue que não era bem sangue,
afinal, pisávamos sem saber.

Ah! se soubéssemos cavar desde a juventude,
quantos terrenos desnecessários não pisaríamos.
Vitor Miranda

O vento

Sempre que estou dentro de um veículo e é possível sentar-me perto da janelinha, abro-a para sentir o toque do vento na face. Aprecio esse prazer.
Não só o vento da estrada é um prazer, posso dizer o mesmo de alguns outros que cotidianamente me encontram.
Ontem, por exemplo, lia alguns saborosos sonetos de Pablo Neruda. Na companhia da leitura, o bom amigo vento, vindo do ventilador, acompanhava-me, dava-me seu néctar para refrescar meu corpo espantando o calor tropical desse nosso país. O vento que vem do ventre do ventilador pode parecer meio que artificial, mas não deixa de causar o mesmo prazer vindo do natural, afinal, são compostos dos mesmos elementos.
Damos graças por aqui que, dificilmente, ele aparece na sua forma mais potente, o furacão ou tornado. É triste vê-lo nessa abominável forma. Engole casas, árvores, carros, placas e cercas numa fome impressionante. Outras vezes, menos forte, mas também abominável, acompanha uma chuva e causa, assim como seu irmão tornado, uma triste destruição.
O vento é como gente, penso. Tem o prazeroso e amado, como tem os indesejados como os acima já registrados.
É quase que poético ver uma leve brisa levantar folhas e papéis e levá-los ao espaço oco do ar. Os papéis e folhas sobem soltos, vão flutuando como seres que buscam o destino sem saber onde ele está. E mais suave é ter essa doce brisa sentida na pele. Ficamos um pouco leves como os papéis e folhas quando a brisa nos toca.
No arquivo de minha memória, lembro-me de certa vez que li “O saci” de Monteiro Lobato. Às vezes, ficava no terreno de casa esperando vir um vento e formar um redemoinho. Queria comprovar se realmente havia saci no seu centro, como li no livro de Lobato. Para fim de minhas fantasias pueris, não encontrei, mas, de vez em quando, tento recuperar tais fantasias.
Outra beleza que não posso deixar de escrever provocada pelo vento é sobre quando ele aparece na praia. É lá que se pode notar que as brisas, sem nenhum pudor, declaram que ali é sua morada preferida.
Quão notável e insuperável é tê-las no mar!
A brisa no mar bate nas águas como se fosse um ritual. Toda a sutileza de sua ação torna-se um ato divino e ímpar. A brisa batendo no mar é um bumerangue que sai da praia. Ela sai da orla, vai ao mar e volta úmida para tocar os que pela praia estão.
Minha crônica chega ao fim, enquanto sobre meu corpo quente e castigado pelo calor, o vento na sala com seu dom de sempre vai curando-o.

Vitor Miranda

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Conto: Madeira

De um lado para o outro, Baltazar movimenta a lixa sobre a madeira. O pó escorre no ar e deixa seu odor quase maduro. Penetra-lhe o cheiro uniforme no nariz. Cheiro costumeiro, odor de vinte anos de profissão, eflúvio inodoro.
O trabalho meticuloso sobre o pedaço de árvore morta, servirá para um corpo frio, sem vida. Na cidade, todos dizem: “Os caixões do Baltazar são os melhores.” Vaidade desnecessária. Corpo inerte precisa só de um cobertor de terra, a madeira é um mero transporte até o cemitério.
Pedaços de lixa e madeira avolumam-se num canto do salão, onde o calor do dia dobra sua temperatura sob as telhas finas. Baltazar despejando o suor sobre a pele empoeirada, bate um prego, cria o barulho sobre a madeira que começa a dar forma ao fúnebre ganha pão. Deitado, em dose exata de sono, um corpo cairá sobre esses pregos, madeira e restos de pó vegetal.
Senta-se num banco. Descansa Baltazar. O cigarro barato na mão é aceso e leva o tabaco a ele. Quatro da tarde é um bom horário para se descansar, aguardar com expectativas o momento de ir embora do trabalho. É o que faz Baltazar, pobre, sério e barateiro construtor de caixões.
Enquanto os minutos lhe presenteiam com o descanso merecido, e num cantinho do salão um rádio toca uma música antiga, palavras e reflexões caem em seu pensamento. Coisas nunca pensadas no trabalho.
O caixão que nasce, quem será seu dono? Se a pessoa que o ocupar for desfigurada, os veladores não verão as formas exatas e desenhadas do interior. A morte deverá escolher um bom fim ao sujeito que descansará nele. Um ataque cardíaco seria uma excelente maneira, não traria nenhum motivo para que o lacrasse. É preciso que as pessoas não se privem de suas medidas e detalhes exatos. É um caixão sem defeitos.
Quanto carinho nesse novo caixão. Baltazar pegou a melhor parte da madeira, usou a delicadeza do escultor para detalhá-lo e passou verniz verdadeiro ao invés de passar produtos enganadores. Para ele, suas mãos produziram uma grande arte.
Caixão, quem merecerá seu leito, rico ou pobre? Mais acabamentos lhe dou? Se vender aos pobres, terá um preço baixo, se vender aos ricos, preço alto. Mas em minha incapacidade de suposições, não consigo calcular seu preço. Há homens ricos que não valem nada, desprezíveis criaturas que não merecem nem ser enterradas, a eles não o vendo. Terra a esse tipo de gente é pecado sem perdão. Não se pode negar que há pobres assim também, logo, a eles não o vendo. Em silêncio, Baltazar ouve esses seus pensamentos, idéias que falam alto sem necessidade de boca.
Levanta-se e caminha ao caixão. Sobre o cavalete, alisa a madeira, dessa vez sem a lixa, apenas com as mãos grossas de sujeira. Ao deslizar a mão, sente na madeira certas sensibilidades carnais. A razão é ilógica para a novidade que se sente. Baltazar sente na superfície do caixão a sensação de acariciar a pele feminina. É lisa e quente, perfume florestal. A inércia da madeira o conforta, absorve no contato certas emoções abstratas e cruas. Nasce nele um pequeno universo recheado de prazeres.
O preço da obra de Baltazar já não mais existe, se é que existia para ele. Paralisaram-se todas as regras anteriores do trabalho diário que lhe paga as despesas. Os sentimentos de uma criação nunca são revelados por completo. Quando se depara com eles, acontece o que aconteceu com Baltazar, a criação torna-se o tudo.
Magro ou gordo, dentro de você esses porcos não entrarão. Ninguém o entende, não percebem o que você é. Sim, um caixão aos olhos insensíveis. Pupilas cegas que pensam que a imagem é sua forma real. Seu conforto será reconhecido, não ficará embaixo da terra sendo mastigado por vermes sem ninguém saber seu mais sublime segredo. Você transborda um prazer suave, quase brisa, quase água de lago – diz Baltazar sozinho ao olhar fixamente o vácuo do caixão.
Com cuidado, Baltazar, enquanto murmura certas palavras, dá os últimos retoques, acabamentos buscados por todos os criadores para atingir uma perfeição sempre insatisfeita.
À medida que finaliza o caixão, cresce a admiração por seu trabalho. Baltazar sem saber resistir, acaricia cada espaço da madeira, respira o ar da serragem como se fosse um raro perfume. O que se nota nele, não é uma paixão, mas algo que foge de qualquer explicação. O mundo é ele e o caixão.
As noções das horas se foram. Dia ou noite, tanto faz, o sentimento, quando forte, cria um mundo sem ordem, faz de pequenos minutos uma ampulheta eterna, escoando cada grão de areia em velocidade mínima.
Ah, caixão tão sedutor, Baltazar está para você, só para você.
Psicólogo ou algum religioso teria que opinião ao ver Baltazar nessa relação com o caixão? Impossível qualquer diagnóstico.
Grande espanto tomaria conta de quem visse Baltazar agora. Ele não se deu conta que o ontem virou hoje. Continua sujo, com a mesma roupa e o maço inacabado de cigarro comprado um dia antes. Fome não tem, sede muito menos. É homem duro em sentimento novo.
Com os olhos abertos, se vira. Está deitado, apertado entre madeiras, cheio de serragem recém-nascida. Ele se encontra dentro do caixão tão admirável. Dormiu durante toda a noite nele. Levanta o corpo, senta-se e apóia-se com as mãos e se vê no caixão sobre dois cavaletes.
Dos olhos de Baltazar, início de lágrimas. A cada lágrima escorrida, uma sensação estimulante ao riso. Ri, ri muito, sem parar, sem pausar o encontro do choro com as risadas altas. Ele sabe, somente ele sabe que, esse caixão tão bem construído e estimado, não pode ser de mais ninguém, a não ser dele. O preço, não há; Números não existem para que se calcule qualquer suposição de valor financeiro.
Quando esse caixão for para a terra, lá estará Baltazar juntamente com ele.
Vitor Miranda

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Dilúvio urbano

Vou muito a Ribeirão Preto. Dias atrás, lá, fui até ao ponto de ônibus para retornar para minha cidade, Serrana, e começou a chover. A espera durou quase vinte e cinco minutos, e, nela, a água que desabava do céu aumentava em boa proporção.
Um dos grandes problemas das cidades, principalmente as grandes, hoje em dia são as enchentes. À minha frente um córrego, um belo depósito para a água vinda da chuva, enchia e começava a ameaçar sua fuga para a avenida e mediações.
Ora, não sou nenhum especialista em construção, ainda mais em galerias, mas sei refletir: as cidades cresceram e crescem tanto que, onde sempre houve terra, agora há cimento e ferros.
Ribeirão Preto é um desses exemplos. A água que cai sobre a cidade não encontra terra suficiente para ser absorvida, pelo contrário, só encontra cimento alojado por baixo de árvores, ruas, casas e outros lugares. É evidente que o único lugar que resta é a superfície.
Quando houve o dilúvio, que se encontra na bíblia cristã, não havia a urbanidade de hoje, pode pensar um leitor mais atento e apontar tal acontecimento como um grande exemplo de enchente. É lógico que aquilo parece mais ter sido um castigo das forças divinas. (há quem creia nessa hipótese, a minha é outra mas não vem ao caso agora)
De qualquer forma, apontei o “acontecimento” bíblico para mostrar que há, aí, uma semelhança, que é o castigo. A chuva que inundava o córrego de Ribeirão Preto não era um castigo divino. Era e é castigo provocado por nós mesmos. Veio por meio dos pecados cometidos contra a falta de verde nas cidades, pelas queimadas e a grande emissão de gases poluentes doados todos os dias à atmosfera e meio ambiente.
Mas antes de fechar essa crônica, não posso deixar de relatar um pequeno fugitivo que vi correndo muito das águas provocadas por nós. Era um rato. (deve ter deixado a família pra trás, pois estava sozinho)
Não sei, mas tenho uma leve impressão que o roedor pensou que era o segundo dilúvio bíblico e devia encontrar a Arca de Noé rapidamente para salvar a espécie.

Vitor Miranda

domingo, 4 de novembro de 2007

Loucos

Já pensou o leitor se não houvesse a loucura, os loucos, quanta literatura boa teríamos perdido? Só para citar alguns exemplos, três clássicos mundiais, “Dom Quixote” (Miguel de Cervantes), “O idiota” (Dostoiévski) e “Hamlet” (Shakespeare).
O primeiro trata-se da figura do cavaleiro Dom Quixote de La Mancha, personagem que fica louco de tanto ler romances de cavalaria e, assim, sai combatendo em nome da justiça. O segundo trata-se do príncipe Míchkin que fica anos fora da Rússia para tratar-se de uma loucura na Suíça. Ao voltar à Rússia passa por várias situações dramáticas. Já em Hamlet, Ofília enlouquece e morre quando Hamlet vai embora do reino da Dinamarca. (essa uma das mortes mais belas de toda a literatura mundial de todos os tempos)
Na literatura Brasileira, a loucura também aparece. Em “O seminarista” (Bernardo Guimarães), o personagem Eugênio fica louco ao ver a amada Margarida morta; Em “O triste fim de Policarpo Quaresma” (Lima Barreto) o personagem homônimo é internado por ser julgado louco ao defender a idéia de que a língua portuguesa deveria ser substituída pelo tupi.
Exemplos à parte, o que traçarei em algumas linhas adiante será sobre o conto “O alienista”, de Machado de Assis.
O tema da narrativa é a loucura, já tão exemplificada até aqui.
Simão Bacamarte é um alienista recém-chegado à vila de Itaguaí. Com o apoio da Câmara local abre na vila um hospício, intitulado Casa Verde, para estudar e tratar os que ele considera louco. O problema surge com os motivos das internações.
Simão Bacamarte considera loucura a modéstia, a vaidade, a admiração, a solidariedade e os vícios. Com isso, várias são as pessoas recolhidas à Casa Verde.
O resumo é esse, mas não pense o leitor que a sinopse adianta o grande valor desse grandioso conto machadiano.
A leitura se torna prazerosa e o leitor absorve a mensagem de Machado ao ler cada palavra da obra. Enxerga nela a montagem dos significados que se juntam na ironia fina machadiana.
A ironia, esse recurso textual, é uma das grandes chaves para se entender a maioria da obra de Machado de Assis. Antes de qualquer coisa, o cientificismo encontrado em “O alienista” é usado para ironizar o próprio cientificismo. Já na primeira página, o leitor encontra uma escolha científica de Bacamarte para o matrimônio e geração de seus filhos. Ele casa-se com D. Evarista por ela, segundo seus estudos científicos, ter atributos que lhe garantiriam filhos robustos. Engana-se: ela não lhe gera nenhum filho.
A crítica de Machado de Assis em “O alienista” demonstra os limites de uma ciência que, com teorias e mais teorias, impunha uma empáfia de querer ter as respostas para todas as questões da humanidade.
A ciência é falha, as crenças também. Mas do que um pessimista, Machado se comporta como um irônico cético numa humanidade minúscula e individualista. Não há relações humanas puras. Itaguaí é uma vila que existe em cada um de nós. É a representação de nossos defeitos e poucas virtudes.
A loucura é um mundo desconhecido como o próprio homem. Cada um é uma ilha intransponível habitada por si próprio. Bacamarte é o símbolo de um cientificismo fracassado que fechou o século XIX.
O final do livro é criativo e genial. É, simplesmente, uma metáfora da fracassada ciência que, quando beneficia o homem, cobra-lhe um valor alto por isso.
O atencioso leitor percebe na leitura de “O alienista” uma linguagem histórica de um Brasil que se expandia com o progresso urbano. Machado faz um trabalho primoroso, rico e oral com os diálogos e o discurso do narrador.
A inclusão de classes sociais distintas como o barbeiro, médico e vereadores não é para se fazer um contraste entre elas, mas para mostrar que são equivalentes no campo moral e psicológico.
A moral é deixada de lado para atingir interesses próprios, como o caso do barbeiro Porfírio que lidera a “Revolta dos Canjicas” e se vê eufórico com a oportunidade de governar Itaguaí. Na parte psicológica, Machado aborda personagens ambiciosas, vingativas, acomodadas e violentas.
A loucura funciona como um grande pano de fundo para que o leitor perceba que o homem do século XIX é o mesmo de agora e de sempre.
Salve Machado de Assis, antes que Simão Bacamarte o interne.
Vitor Miranda