sábado, 17 de janeiro de 2009

Mais do que som


Na mitologia grega, Orfeu tinha o dom da música. Por meio dela encantava os ouvidos humanos e dos animais. Nunca vi Orfeu, mas a arte dele sempre ouço. É difícil imaginar viver num mundo sem música. Já de pequeno, ainda no berço, as primeiras melodias são soadas para que possamos dormir. Sem nada entender, aceitamos a beleza sonora e caímos no delicioso sono pueril, fazendo do mundo apenas um lugar que fica lá fora com a música sendo o escudo que deixa a vida dentro do espaço do berço.
É muito agradável ouvir uma bela música. O prazer vindo dela pode ser pela simples melodia ou pelo casamento da melodia com a letra. Acontece que nos dias de hoje ela não é vista exatamente como uma arte pela maioria de seus autores. Não se pode classificar qualquer tipo de som como música, é cair no erro de achar que japonês é o mesmo que chinês.
Antes de qualquer coisa, a música se propõe a passar ou provocar um sentimento real e permanente. Qualquer ouvido sensível que se depara com Beethoven ou Mozart, mesmo não tendo nenhum conhecimento mínimo sobre música erudita, se rende ao prazer sonoro de suas composições. Uma sinfonia de Beethoven eleva a alma a um patamar impossível de ser medido. Tudo deixa de existir e o corpo torna-se um pequeno átomo revestido de prazeres artísticos.
Por ser uma das mais importantes artes, a música frequentemente nos remete a outras artes. Na minha adolescência, fui um adolescente como a maioria, um cavalo que trotava sem paradeiro num vale interminável e cheio de surpresas. Foi então que conheci duas músicas de uma banda que marcaria a minha formação e continua marcando. Faroeste caboclo e Pais e filhos, ambas do grupo Legião Urbana.
Pela primeira vez na minha vida eu parei para analisar uma música. E foi nessa etapa que descobri que a arte é sentimento. Descobri que a voz misturada com acordes transmitia a ideia de que o mundo era um lugar de grandes valores. A narrativa de Faroeste caboclo sobre um sujeito que sofrera os mais duros golpes na vida, se mostrava como filme, conto, música, pintura... A arte se revelou viva para mim. Poderia ter se manifestado de qualquer forma, mas se manifestou como música.
Pelas músicas da Legião Urbana descobri Manuel Bandeira e Camões, além de partir para Beatles e crescer em mim uma crítica televisiva e consumista. Ouvi, para grande espanto, Geração Coca-Cola. Mais tarde, ao findar minha adolescência, caio na MPB e nela conheço Chico Buarque, Tom Jobim, Caetano, Geraldo Vandré... O jovem da Legião Urbana tinha acrescentado mais arte sonora ao seu mundo.
Mas a música não está só em mim. É inegável a importância dela nas mais distintas culturas. Ela não apenas embala o sono do bebê e desperta um adolescente para a vida, ela carrega por séculos tradições de homens que começaram a escrever a história que escrevemos hoje. As festas juninas só ganham vida na sanfona e nos cantares. Dançamos ao som da música, louvamos a fé pelo canto. O folclore brasileiro é impraticável se a música se fizer ausente de sua base. Bumba-meu-boi não bumba sem o bumbo, e este só deixa de ser um objeto quando dele nasce o som, a música secular.
Em algumas escolas no Brasil ainda se pratica o canto do hino. Muitos só se lembram dele na época da Copa do Mundo, e olha que os homens de chuteira raramente conseguem cantá-lo até o fim. A letra a eles e até a muitos estudantes é matéria de ignorância. O hino nacional é por excelência um dos maiores símbolos de uma nação. Celebramos por música o respeito e orgulho por nossa terra natal.
Podem me chamar de ignorante, mas sempre defenderei a boa música. Não se houve músicas antigas porque se é saudosista, ouve-se porque não há mais a preocupação com a boa letra e melodia na atualidade. Castigar os tímpanos com o som esdrúxulo dos que se dizem artistas é a soma de todas as imbecilidades possíveis. A arte é expressão de sentimentos que jamais devem ser passageiros e inócuos. Ela é expressão permanente que deixa a vida mais bela e melhor de ser vivida.

Vitor Miranda

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

O dono da casa


Imagine a seguinte situação: você tem uma casa de cinco cômodos. Dois quartos, sala, cozinha e banheiro. Num determinado dia, alguém lhe impõe de modo draconiano que sua casa será dividida entre você e outro alguém. Esse alguém fica com os dois quartos e a sua sala. Qual seria seu sentimento e reação?
A situação acima é mais ou menos o que está ocorrendo entre Israel e Palestina desde 1947, data em que a ONU oficializou em terras palestinas o Estado de Israel. A casa, nessa situação, pertence à Palestina.
A guerra que está ocorrendo entre Israel e Palestina tem como fato principal o não reconhecimento por parte dos palestinos de que Israel é um Estado. Ocorre, entretanto, que há aqui uma disputa desleal. Israel, muito bem armada e apoiada por grande parte do Ocidente, principalmente pelos Estados Unidos, bombardeia diariamente o território da fraca Palestina, que nada tem de apoio e armas avançadas.
Por mais que se busque uma resolução justa para a causa, apesar de que raramente há soluções justas para uma guerra, sabemos o destino disso tudo. Israel com um armamento e apoio superiores aos da Palestina, tomará ainda mais territórios pertencentes aos palestinos. Como consequencia, Palestina ficará ainda mais enfraquecida e, numa provável e futura reação como esta que estamos presenciando da Palestina contra os judeus, a fraqueza palestina crescerá. O dono da casa perderá todos seus cômodos, todo seu território.
É difícil entender por que a ONU, criada para ter decisões acima da vontade de uma nação, não toma uma posição justa e explícita. De nada adianta por no papel que pediu trégua aos ataques contra os palestinos, que a cada dia precisam de covas e mais covas, principalmente para crianças e outros civis. A ONU precisa tomar uma atitude prática, de caráter objetivo para que a injustiça promovida pelos judeus de Israel não avance mais.
Apontar que os mulçumanos são terroristas, principais promovedores de ameaças ao mundo, é uma atitude totalmente descabida e infundada. As mortes que um terrorista promove em ataques são as mesmas que a globalização, tão glorificada pelas grandes nações, nos presenteia. O problema é que o sangue derramado em massa pelas bombas terroristas são mortes com causas explícitas. Agora, a ferrenha disputa em que vivemos devido ao sistema econômico que predomina no mundo, provoca mortes quase que indiretamente. Por vivermos numa selva em que não há vagas para todos trabalharem, terem um lar e outras necessidades básicas, disputamos com nosso semelhante um lugarzinho ao sol. Quem não consegue o lugarzinho ao sol procura de outras maneiras sobreviver. Sem trabalho, oportunidade, nasce uma porta para a criminalidade, para a violência. Nela o roubo, o sequestro, o estupro, agressão e o assassinato surgem provocando o mesmo efeito dos terroristas. Sendo um quadro muito bem maquiado as disputas de nosso dia-a-dia, é fácil apontar que o terrorismo mulçumano é ameaça maior ao mundo.
A cultura de qualquer povo deve ser respeitada. O Ocidente muitas vezes não aceita nem suas próprias diferenças, e quando o assunto é a cultura oriental, mais precisamente a dos mulçumanos, aí que essa aceitação é inexistente mesmo. É difícil aceitarmos que do outro lado do mundo há povos muitos diferentes de nós. Não aceitamos o deus deles mas queremos que eles aceitem o nosso. Se eles valorizam a morte, dizemos que eles são loucos. Impõe-se, como quase sempre, mais ou menos como fizeram com nossos índios, a troca do pensar. Tudo que é do outro culturalmente é sem valor, vale aquilo que é meu. O índio não enxerga mais no sol, na lua e na natureza os seus tradicionais deuses. Tudo lhe foi imposto. O mais fraco é obrigado a vender o que é seu sem nada ganhar.
O bombardeio israelita contra a Faixa de Gaza até parece uma vingança de um povo que muito sofreu durante a História. Acontece, no entanto, que estão bombardeando alvo errado por estarem num lugar que não lhes pertence.
O horror do holocausto sensibilizou o mundo durante a Segunda Guerra. Ver a intolerância contra os judeus, seres humanos sendo mortos pelo preconceito e, também, por invasões nazistas em territórios alheios, era inaceitável. A vítima, contudo, parece que virou algoz. O homem é uma criatura que procura aprender com os maus exemplos os maus exemplos, sendo que deveria aprender com os maus exemplos aquilo que não se deve fazer.

Vitor Miranda


Grande sertão: roseano


Falar bem de uma obra de João Guimarães Rosa é chover no molhado, ainda mais quando se trata de Grande sertão: veredas. Depois de quase dois meses, terminei de ler esse único romance de Guimarães Rosa. Ao longo da leitura tive uma alegria e uma tristeza. A alegria se deu pelo início da leitura e a tristeza pelo livro ter terminado.
Grande sertão: veredas é uma daquelas obras que o leitor torce para que não acabe. Cada página, narrada com maestria pelo narrador-personagem e ex-jagunço Riobaldo, é um prazer único e fonte de profundos conhecimentos. A linguagem, a filosofia, a crença, a geografia do sertão e o amor se entrelaçam edificando esse que é um de nossos maiores romances.
Muito se fala sobre o Grande sertão: veredas, mas como comentou comigo certa vez um amigo escritor, são poucas as pessoas que já leram a obra, inclusive professores de literatura e língua portuguesa.
A leitura dela é de fundamental importância para quem realmente aprecia a boa literatura brasileira ou para o profissional da área de Letras. Guimarães nos ensina a geografia do sertão sem se preocupar em ser didático. A naturalidade do espaço sertanejo é posta nas linhas pela linguagem que revela quem é o homem e onde ele está.
Riobaldo ao longo da narrativa ao seu interlocutor, que aparece nomeado por “senhor”, esclarece passo a passo quem foi o grande amor de sua vida, além de discutir sobre a existência ou não do diabo.
Aquilo que envolve sua situação amorosa com Diadorim é digna obra prima de construção literária no âmbito da paixão. Por baixo da dureza da figura do jagunço Diadorim, estão o coração, corpo e alma feminina. Isso passo a passo é trabalhado ao longo de deliciosas seiscentas páginas. O amor por Diadorim, que a princípio era um homem, deixa o jagunço Riobaldo inconformado. Como era possível ele ter se apaixonado por um homem? Mas não era homem, Diadorim era ela. Tal descoberta só ocorre quando Riobaldo não mais pode consumar seu grande amor. Diadorim é morta numa luta com o jagunço Hermógenes. Diadorim era tão sensível que até o nome dela lembrava de um passarinho, como dito por Riobaldo ao longo do texto. O que se pode ver nessa situação, é que o amor de Riobaldo por Diadorim conseguiu enxergar aquilo que os olhos não conseguiram. É o sentimento perfurando regras morais e se mostrando verdadeiro. Riobaldo não amava um homem ou uma mulher, Riobaldo amava Diadorim.
O demônio existe ou não? A dúvida da humanidade também é a de Riobaldo. Ele, entretanto, chega a uma conclusão: o demônio existe nas ações do homem. Assim pensa Riobaldo, que nos apresenta uma multiplicidade cultural para nomear o demônio. Cramulhão, Temba, Coisa Ruim, O-que-nunca-se-ri... e por aí vai. É filosófico pactuar com o demo. Se a alma pertence a Deus, não se pode vendê-la, conclui Riobaldo.
A obra compõe-se também de pequenos “causos” que vão acrescentando ainda mais qualidade às questões principais do romance. É primorosa a história de Maria Mutema, mulher que assassina o marido com chumbo derretido no ouvido e faz com que um padre se mate por ela. Riobaldo narra a história com poeticidade na linguagem, com coloquialismo e neologismos, algo que ocorre praticamente durante toda essa narrativa.
Ler Grande sertão: veredas é mais do que um exercício de leitura. É um aprendizado de vida, é a chance de conhecer um pouco do sertão geográfico para conhecer o sertão que se esconde dentro de nós. Amor, ódio, vingança, esperança, ilusão, tudo está no livro. E se tudo isso está na obra, então se pode concluir, sem nenhuma dúvida, que João Guimarães Rosa escreveu o que é a vida. E a vida se faz pela linguagem.
Vitor Miranda

domingo, 4 de janeiro de 2009

Metamorfose verbal e sonora

Geralmente quando o homem busca o progresso, está buscando melhorias. O automóvel de hoje é mais confortável, o fogão de hoje é a gás, não a lenha; o relógio é digital, não é a corda, enfim, várias e várias transformações ao longo do tempo.
Assisti recentemente a duas entrevistas. Uma foi com o escritor Carlos Heitor Cony, a outra com o músico Kid Vinil, roqueiro brasileiro da década de 1980. Este falou sobre música, óbvio, aquele sobre literatura.
Chamou-me a atenção a opinião de ambos sobre o progresso de suas respectivas áreas, mais propriamente sobre os instrumentos que envolvem a música e a literatura. Sobre a literatura, o instrumento em pauta foi a velha e dinossaura máquina de escrever. Cony falou sobre o imenso trabalho que era a correção dos textos em épocas em que o computador não existia, épocas das Olivetti e outras marcas. Para quem não chegou a conhecer as máquinas de escrever, é bom que saiba que não havia nelas uma tecla que apagasse uma palavra ou letra digitada incorretamente. A tarefa de correção do escritor era feita de modo cansativo. Ou se jogava fora o texto já datilografado e fazia-se a correção, ou rabiscava-se o papel no determinado erro, embora depois o escritor escrevesse novamente seu texto em outra folha fazendo a correção em determinada palavra ou idéia escrita incorretamente.
Era comum o escritor gastar vinte ou mais folhas de papel para conseguir escrever corretamente uma. As pilhas de papel que se formavam eram comuns. Em tempo de consciência ambiental, não seria muito prudente gastar tanto papel assim.
O surgimento do computador fez com que a aposentadoria da máquina de escrever fosse decretada. Hoje com uma tecla se apaga um texto inteiro. É uma revolução que veio a ajudar o escritor e o meio ambiente. Um livro de trezentas páginas feito em uma máquina de escrever derrubava muitas árvores, o que foi diminuído com a utilização do computador para digitar os textos.
Já na música, a evolução não chega a ser tão prazerosa assim. Os discos ou vinis, os chamados “bolachões”, já não são mais usados. Aos poucos foi perdendo espaço para o cd, dvd e o mp3. Hoje é possível baixar músicas na internet antes mesmo de elas chegarem às lojas. Não há mais a expectativa que se tinha em esperar chegar o disco às lojas, fazer filas e garantir o novo disco do Eric Clapton, do Bob Dylan, só para citar dois monstros do pop mundial.
É incontestável a praticidade dos novos formatos musicais, além do fim do chiado nas músicas tornando o som delas mais claros. Mas por outro lado, ocorrem os prejuízos, não especificamente os direitos autorais, isso é uma outra história. Como já citado, há o fim da expectativa da chegada do novo álbum do artista às lojas. Fora isso, se pegarmos o trabalho gráfico das capas dos discos de antigamente, notaremos que tamanha beleza está sepultada. Muitas vezes a capa era um desafio interpretativo. Só para ficar em um exemplo, peguemos uma capa clássica: a do disco Abbey Road, dos Beatles. Nela há a sugestão da famosa lenda sobre a morte de um de seus mais célebres integrantes, Paul Mccartney.
As mudanças não param por aqui, é evidente que até o computador e os novos formatos musicais estão sujeitos a sofrerem mais progressos. O que ocorre também é que a cada progresso alguma coisa boa fica para trás. O grande problema disso tudo é que muitas vezes a qualidade do artista também muda, e para pior. As facilidades geram, em alguns casos, o comodismo. A mente deixa de trabalhar, se esforçar e a boa literatura e música ficam no passado.
O ideal seria que o progresso apenas trouxesse aquilo que realmente é bom, facilidades e bons artistas. Porém, como há sempre os dois lados, temos que saber aproveitar o que surge de positivo e guardar um espaço na memória para a saudade daquilo que se foi e que um dia foi bom, muito bom.

Vitor Miranda

sábado, 25 de outubro de 2008

Metáfora, metáfora...

“Seus olhos são duas pérolas”, “Mariazinha, você é uma rosa”. Tudo bem, as duas frases estão desgastadas há muito tempo, já são clichês inquestionáveis. Mesmo assim, é inegável que possuem uma beleza, chamam a atenção, até porque não existe olho de pérola e não existe uma mulher que é uma rosa realmente. Estamos falando aí da metáfora.
Por excelência, a metáfora é uma representação, uma comparação indireta. Quando o assunto é arte, ainda mais quando é realmente “arte”, é quase certo que o artista faz uso de metáforas. Seja na pintura, na música, na literatura ou no cinema. A metáfora lá está, embelezando a linguagem, dando uma nova roupa a uma expressão. Traz a reflexão e modifica a expressão para transformar a mensagem em arte
Sendo a metáfora uma representação de alguma coisa, resta a nós aceitarmos o jogo e desvendarmos a mensagem. A luta de Dom Quixote contra os moinhos de vento é uma das mais belas metáforas literárias da literatura universal. É claro que os moinhos não eram monstros gigantes, eram metáforas. Representações de várias lutas dos homens contra suas próprias criações. Se Dom Quixote enxergasse nos moinhos apenas moinhos, já não seria arte esta obra de Miguel de Cervantes, seria um amontoado de palavras, sem beleza e reflexão.
Narrar histórias para as crianças sem a metáfora, como seria? Imaginemos. Será que contar a história dos três porquinhos de forma denotativa, considerando a realidade dos suínos, criaríamos a fantasia e passaríamos valores humanos às crianças? Se narrarmos a história de três porquinhos que moram em um chiqueiro, comem lavagem, são sujos e no natal vão para a mesa com uma maçã na boca, descartamos a metáfora e matamos informações e reflexões aos futuros adultos. Agora, se usarmos a metáfora, falaremos de três porquinhos que são bem diferentes entre eles: um não é muito preocupado e faz uma casa de palha para se proteger dos perigos do lobo mau. Um outro que é um pouco mais preocupado, só um pouquinho, ergue uma casa de madeira. O terceiro, este sim, preocupado com a segurança, constrói uma casa de paredes bem resistentes. Narrando a história assim, metaforizamos uma situação e criamos valores e reflexões aos pequenos ouvintes, além de aguçar a fantasia deles.
Picasso ao pintar o quadro Guernica, não teve dúvida: “se quero fazer arte, tenho que usar a metáfora.” E assim fez o espanhol. Com seus traços cubistas, surgiram os traços, um aqui, outro ali, mais um, e outro e eis que, estava pronta a mensagem crítica, artística dele sobre a guerra civil espanhola. Imagens fragmentadas de pessoas e animais, numa clara alusão metafórica da fragmentação do homem em conseqüência da guerra.
Por ser uma representação muitas vezes não compreendida, a metáfora em algumas situações é vista de modo literal. Se ela não é encarada como uma representação, as pessoas olham o quadro de Picasso e dizem que a pintura dele é apenas um monte de figuras quadradas, pés, braços e cabeças separadas do corpo. Ou ainda pensam que os moinhos de Dom Quixote realmente são monstros gigantes.E é justamente isso que vem ocorrendo com o sensacional filme Ensaio sobre a cegueira, do diretor brasileiro Fernando Meireles.
O filme é uma adaptação do romance homônimo do escritor português José Saramago, vencedor do Nobel de Literatura em 1998. A história é sobre uma epidemia de cegueira branca que ataca uma cidade fictícia. O governo isola os contaminados num manicômio abandonado e lá eles passam a conviver em uma sociedade de cegos, sendo que um deles, uma mulher, tem o “privilégio” de enxergar. Ela é a única que não é contaminada. Com poucas pessoas no lugar, a comida é igualmente dividida entre os cegos. Com o aumento de pessoas no recinto, um grupo, munido com arma de fogo, toma posse da comida e começa a negociá-la. O preço, inicialmente, se baseia na troca de objetos pessoais pela comida. Depois, com o fim dos objetos, as mulheres passam a ser o preço. Troca-se comida por sexo. Fora isso, são descritas e mostradas imagens de uma situação em que o homem é rebaixado à sua condição mais primata possível. As fezes, o lixo e cadáveres enfeitam o cenário, ou melhor, representam. São representações daquilo do que somos capazes de fazer. Saramago nos faz um doloroso convite para enxergamos, mesmo cegos, que a modernidade e o progresso apenas ocultam a nossa essência humana.
E por não ser visto como metáfora, o filme de Meireles tem sido muito criticado em alguns lugares. Nos Estados Unidos, por exemplo, uma associação de cegos faz árduos protestos contra o filme. Dizem que é uma obra preconceituosa, que ataca a integridade dos cegos, mostrando que eles são maus, injustos e desprezíveis.
Na verdade, os cegos ianques não estão enxergando a metáfora. Para começar, será que ninguém falou a eles que a cegueira no filme é branca, e não escura? Será que é difícil entender que numa situação como essa o pior cego é o que enxerga? Afinal de contas, a situação toda é vista e sentida por uma mulher. É ela que sofre diretamente os horrores do manicômio e, posteriormente, da cidade.
A arte não é arte sem a metáfora. Para enxergá-la não se usa os olhos, mas a sensibilidade.

Vitor Miranda

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

É preciso apagar

O cigarro é um grave problema para a humanidade. Isso porque gera problemas à saúde e afeta consideravelmente a economia de um país. No Brasil, medidas como a proibição de propaganda comercial do produto foram estabelecidas. Além disso, nas embalagens foram estampadas imagens de pessoas com câncer de pulmão e até de fetos. Tudo para tentar sensibilizar o fumante e o futuro fumante a parar de fumar ou a não começar. Mesmo assim, o consumo de cigarro continua. Por que isso ocorre?
O início do fumante com o cigarro geralmente ocorre na adolescência. É nessa idade que o jovem busca distintas formas de provar sua rebeldia, típica da fase. O cigarro gera a falsa sensação de “eu sou dono de mim”. O sentimento de liberdade flameja e encontra no tabaco a maneira de manifestação. O problema é que esse momento de imaturidade e emoção pode se tornar um companheiro eterno, como em muitos casos.
Além da rebeldia como princípio ao mundo do tabaco, há também as influências. As pessoas, várias delas, são facilmente influenciadas por terceiros. No caso do adolescente é ainda pior essa situação. A falta de maturidade é prato cheio para que ele seja seduzido pelas palavras de alguém. Para provar que pensa igual ao grupo ou mesmo provar que os pais não têm controle sobre ele, o cigarro é tragado. Anos depois, a experiência juvenil se manifesta em diversos problemas de saúde e economia.
A saúde, sem dúvida, é a mais afetada pelo hábito do fumo. Um hábito que atinge desde o fumante ao não-fumante.O fumante passivo sem querer é afetado pela ação do tabaco do outro. Ambos são prejudicados e geram custos na área da saúde que crescem a cada ano. Com menos fumantes os gastos com saúde diminuiriam e tais gastos poderiam ser destinados a áreas como a educação ou segurança.
Sabendo que o fumante ingressa no cigarro, na maioria das vezes, na juventude, é necessário que se faça algo urgentemente. Medidas como palestras nas escolas sobre o assunto e maior diálogo entre pais e filhos sobre os malefícios do tabaco seriam um bom início. É inegável que a informação ainda é uma enorme aliada para vencer ou diminuir tão preocupante problema.

Vitor Miranda

domingo, 28 de setembro de 2008

Poetas ausentes


Os grandes poetas sempre escreveram sobre o seu tempo vivido. É fácil constatar nas poesias de poetas como Carlos Drummond de Andrade as questões sociais de sua época. Os versos surgiam como grito para uma sociedade que caminhava entre o medo e a esperança de dias melhores em tempos de guerra e autoritarismo. Exemplo disso é o clássico drummoniano A Rosa do Povo, de 1945. Hoje, no entanto, dificilmente se encontra um poeta brasileiro engajado com questões como o terrorismo ou mesmo política local. O papel social do poeta atual é deixado por ele próprio.
No Brasil, se lê pouco. Poesia menos ainda. É raro um leitor ficar em uma livraria folheando um livro de poesia, ou mais raro ainda haver livrarias disponibilizando um bom número de livros desse gênero. Parece que houve um divórcio entre o leitor e o poeta. Este não mais produz seu grito poético de protesto e de formação de opinião. Os novos poetas parecem se negar a falar do mundo das pessoas.
Por outro lado, quando um poeta de hoje vai versar para as pessoas, cai no reducionismo sentimentalista ou mesmo intimista. O papel social aqui é descartado claramente. Não é necessário, para esses poetas, falar do salário de fome do brasileiro ou da violência. Tal reducionismo é semelhante ao poeta parnasiano, que fugia para as metafóricas torres de marfim. Essa atitude é covarde e egoísta. A palavra como meio de crítica social é forte instrumento. Não há melhor executor do que o poeta. É ele que sabe usar a palavra exata na hora exata.
Falar de poetas como Drummond é bom, mas deve-se citar os atuais também, quando eles merecerem. É lógico que a poesia é o grande valor de um poeta, mas sem dúvida o simples fato de só mencionar o nome de um grande poeta é valioso. A própria imagem dele para a sociedade é símbolo de influência à arte e comprometimento com direitos e deveres. Com a ausência da imagem do poeta e de sua poesia, o social fica enfraquecido.
A importância da arte da palavra para um povo é inquestionável. Por ela se diz o que pensamos e sentimos. E é justamente na poesia que ela assume seu papel de maior força. Todos nós precisamos de grandes poetas para nos ensinar a usar a palavra como arma de defesa social e pessoal. A ausência do poeta cria uma nação órfã e saudosista de poetas clássicos que já fizeram um bom trabalho para nós. É necessário que o poeta reassuma seu papel ativo na sociedade. Assim a poesia volta a viver e nós também.

Vitor Miranda

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Flores e cabelos


O tratamento é doloroso, imagino. As conseqüências iniciais e aparentes são a apatia e os cabelos que somem. Um sumiço sem vontade, porém inevitável. É muito triste ver essa imagem, ainda que a pessoa que esteja assim seja alguém de poucos amigos ou mesmo a pessoa mais odiada do mundo.
Eu me sensibilizo, e muitos outros também. O câncer maltrata quem o acolhe. É indesejável, hospedeiro cruel que consome lentamente a vida. A cada mordida dele, vão-se segundos, minutos, horas e dias de um amanhã que continha sonhos, desejos secretos e públicos, amor para compartilhar, esposa, esposo, filhos e netos que seriam abraçados e devolveriam o mesmo afeto. É inaceitável, é agonizante e estúpido. Aliás, estupidez é um prato cheio que há na vida. Mas vamos em frente, sempre há resquício de felicidade para se viver.
Gostaria que os que possuem câncer tivessem o belíssimo câncer que consomem as árvores. Principalmente dos ipês. Como os cabelos em uma quimioterapia, as flores deles caem na primavera.
Perto de casa há uma praça. Entre os bancos sujos, uma fonte com água doente, um coreto de cidade fantasma e uma igreja católica, ilumina o grande ipê amarelo. Grande no tamanho e na beleza ímpar.
Já ouvi certas pessoas reclamarem da sujeira das flores amarelas que ele despeja no chão. As pessoas, na verdade, estão ficando cegas para as belezas naturais da vida. Rubem Alves mencionou certa vez numa crônica uma mulher que detestava um ipê pela “sujeira amarela” feita por ele. Quando li a crônica dele, imaginei que essa mulher deveria ser única. Não era. Por aqui, pertinho de casa, há várias pessoas assim.
É impressionante como muitos preferem e vibram com outras sujeiras. Na praça do ipê, quando há pedaços de papel, garrafas de vidro ou de plástico, poucas são as vozes que reclamam. O comportamento humano é bicho estranho mesmo. O ipê, com seu desfile de flores tombando no ar, é lição que não se aprende. É, na verdade, o toque secreto do prazer na alma. E prazer não se aprende, apenas se é levado por ele, sem resistência.
O mais bonito, porém, não é ver as flores do ipê que caem. O bonito é olhá-lo e saber que no próximo ano, na mesma estação, aquelas pétalas voltarão. O ipê fica seco, meio doente, para renascer com o mesmo perfume e copa colorida.
Pudera os portadores de câncer ter a certeza do ipê, ver que o cabelo que cai, só vai embora para renascer numa outra estação. Os cabelos das pessoas que têm câncer não são a sujeira florida do ipê, são fios que muitas vezes caem marcando um dia ou um mês a menos de vida.

Vitor Miranda

Papéis passados


Não há dúvida, com a passagem do tempo mudanças ocorrem e vão mastigando tudo aquilo que um dia foi alguma coisa. Vai embora a pele lisa e chega a enrugada, foge a lagarta e surge a borboleta, some um rio, uma floresta e nasce a cidade. As mudanças vão desde o pessoal ao coletivo, passando por coisas grandiosas e pelas mais insignificantes ou menos notadas.
O progresso tecnológico talvez seja um dos maiores culpados por tanta mudança que foi ou virá.(e nisso incluem-se as coisas grandiosas e menos notadas)
Prefiro, por enquanto, falar das mudanças que foram, as que virão deixo para uma outra ocasião. O objetivo aqui não é profetizar, apenas relatar a muita saudade que existe das coisas mortas pelo tempo, e as poucas euforias com algumas boas mudanças.
O meu saudosismo é simples, e talvez eu encontre companhia de algum leitor também com muita saudade de um pedaço de papel e uma caneta. Eram esses os materiais que antes se usava para escrever uma carta (lembram o que é uma carta?). Além disso eram ferramentas do padeiro e do açougueiro para fiar a compra do cliente. Caderneta e caneta...
O fato é que o computador tomou o trabalho da caneta e do papel. Não só isso, tomou outros trabalhos também. Mas fiquemos concentrados no papel e na caneta. (e a euforia que mencionei, já está registrada. Digamos que esteja na troca da caderneta do pão e da carne. Euforia morna, é verdade. Os comerciantes sabem mais do que ninguém que o progresso veio mas também vieram grandes calotes)
Agora as saudades, na verdade, uma, mas com valor de muitas.
Os recados hoje não mais vivem nas cartas ou bilhetes, navegam de forma apática no mundo virtual. O carteiro tem que se contentar em entregar contas a pagar. Orkut, MSN e torpedos via-celular seqüestraram sem resgate o trajeto do homem amarelo. Com isso, ganhou-se praticidade e rapidez. O que reclamo e encho de saudade os olhos e as mãos, que já andam com calos apenas nas pontas de tantas teclas pressionadas, é que o saboroso e ímpar contato com o papel e as letras borradas e manuais vai sumindo lá no longe da memória.
Recuso-me muitas vezes escrever com o computador. Dou uma escapada para os papéis, cola, selo e caneta, mas... as cartas até que vão, porém as respostas não chegam pelo mesmo caminho que foram. Se eu quiser as respostas de correspondências, tenho que abrir o mundo fictício de meus e-mails. Lá estão as respostas: paralisadas, sem vida, intocáveis e tristes.
Por mais que a modernidade com toda a potencialidade que possui, seja na informática ou não, transforme quase tudo e quase todos, certos prazeres são insubstituíveis. Abrir o e-mail não possui o mesmo sentimento humano de ouvir a batida de palmas do carteiro no portão ou o ruído do papel deslizando a caixinha de correio com uma carta, dos amantes, dos pais distantes, do irmão, do soldado na guerra, dos amigos..., apesar de que o próprio e-mail já está na UTI, uma vez que as pessoas preferem, várias delas, a usar mensagens instantâneas.
A modernidade levou o papel embora, está quase levando o próprio e-mail, o que fica para trás é um pouco do muito que é a escrita artesanal.

Vitor Miranda

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Dolorida eternidade


Quando eu era criança, costumava esquivar-me da morte quando ela era o assunto a ser mencionado ou ouvido. Havia um certo pavor em pronunciar a palavra e enfrentar esta grande certeza dos seres vivos. Cresci. O que era medo e matéria de maus sonhos não me assusta mais. Porém, sem dúvida, ainda é tema de conversa e leituras.
Numa aula dias atrás, uma aluna me perguntou se eu gostaria de viver para sempre. Minha resposta foi não. A pobrezinha se assustou com minha firmeza na resposta. Os jovens alimentam uma efêmera ilusão da eternidade. Primeiro acham que a juventude é eterna. Não contentes, pensam que a vida é eterna. Mas eles crescem e vêem que a eternidade realmente é mais irreal que Papai Noel.
Na conversa que tive com a aluna, comentei com ela sobre o belíssimo romance “As intermitências da morte”, do ótimo português José Saramago. Falei sobre as reflexões sobre a morte que há no livro. Importâncias que vão desde a economia ao desejo imenso de se morrer. (um desejo suave de descanso)
Dia-a-dia convivemos com a idéia do fim. Tudo que nos rodeia parece ser um prenúncio de que um dia iremos embora também. O sol nasce e morre e nasce no dia seguinte. Somos o sol que nasceu e morreu, mas não somos o sol que volta no dia seguinte. O que volta no dia seguinte são nossos descendentes que serão a noite no final do próximo dia.
Seria muito chato e daria muito trabalho aos outros se vivêssemos duzentos ou trezentos anos ou eternamente. Uma vida com sete ou oito décadas de vida bem gozadas seria suficiente para minha estadia por aqui. Mais importante que viver, é como viver.
Estar vivo é poder olhar para o dia e saber que você faz parte dele e produz para ele. Uma inatividade, a limitação aos prazeres dos olhos, tatos e outros nossos sentidos são modelos de sepultura viva.
A eternidade é dolorida e intolerável. Que bom que inventaram a morte. A vida é mais valiosa com a existência do fim.

Vitor Miranda