Desde tempos remotos o homem tenta, de algum modo, vencer ou adiar a morte. Ela é símbolo de tristeza, fim e início de uma vida espiritual, no caso das religiões que defendem isso. Tal senso comum muitas vezes não enxerga o grande papel dela na economia, na ordem biológica e mesmo na existência das religiões. Um mundo sem a morte seria o caos. O fim da vida de um ser quase sempre é contribuição para a vida de muitos outros.
O sistema capitalista tem uma relação fortíssima com a morte. É ela que criou funerárias e, por consequência, outros serviços relacionados. Caso se ausentasse do planeta, o desemprego aumentaria e contribuiria para uma recessão econômica. Não haveria razão a presença de planos de saúde ou de vida. O efeito dominó seria inevitável. Sem funerária, não haveria carro funerário, não haveria caixão. Comércio de flores e velas diminuiria consideravelmente.
Além disso, a ordem biológica do mundo também ficaria comprometida. Com seres imortais e pessoas nascendo a cada dia, alimentação e água seriam insuficientes para atender tantos consumidores. A luta por um grão de arroz e uma gota de água seria fato frequente na humanidade. Viver seria uma punição a todos, com o sofrimento por se passar fome e sede.
Um outro setor que seria afetado diretamente seria a religiosidade. Religiões deixariam de ser seguidas. Não haveria frenquentadores de um culto que pregasse a vida após a morte, até porque esta seria inexistente. O conflito barroco carne e perdão, tão presente na vida de muitas pessoas, passaria a ser apenas lembrança. Falar a respeito de religião seria assunto apenas dos livros de História.
Por mais dolorido que seja aceitar a nossa morte ou de quem amamos, é preciso enxergar que isso é um egoísmo. O mundo depende da morte para se renovar e continuar existindo. Se o homem se tornasse eterno, a sociedade viveria o caos da economia, fome, sede, sofrimento infindo e agonia por uma morte que jamais chegaria para dar-lhe o descanso. É preciso entender o seguinte paradoxo: a morte é que mantém a vida.
sexta-feira, 15 de maio de 2009
Se não existisse a morte...
domingo, 3 de maio de 2009
Pirataria: péssimo negócio
Geralmente quando se fala em pirataria no Brasil, o argumento de quem a apoia cai no senso comum de dizer que ela só existe porque os produtos originais são caros. Estes que assim pensam, não percebem que a pirataria é um veneno a todos os envolvidos. Ela contém inúmeros perigos para quem a alimenta e pode causar o fim de cantores, escritores e vários empregos.
Quando alguém vende um produto pirateado, sua única intenção é lucrar. Essa mercadoria na maioria das vezes está fora dos padrões de segurança. A matéria-prima é inadequada, chegando ao absurdo de se usar lixo hospitalar para a produção de bonecas. Além disso, pequenas peças podem ser ingeridas por crianças devido ao produto não ser inspecionado por um órgão responsável. Foge-se da legalidade pelo custo e, muitas vezes, paga-se com a vida.
Além disso, artistas e outros empregados que dependem da venda de produtos originais, ficam a um passo do desemprego. Com isso, gera-se um aumento de desempregados e a economia deixa de crescer, pois impostos desse setor econômico deixam de existir. Impostos, aliás, que pagam artistas, gravadoras e todas pessoas envolvidas com o comércio legal. É por isso que se paga mais por produtos originais.
Ainda há de se levar em conta que existe também outro aspecto negativo, no caso, a criminalidade. Seja o vendedor ou o comprador, ao fazer prática da pirataria, torna-se, automaticamente, um criminoso. Essa criminalidade ajuda na formação de traficantes e quadrilhas que, por fim, culmina em um quadro elevadíssimo de violência no país.
Praticar a pirataria é trazer para a casa perigos e aumentar a criminalidade no país. É fato que a legalidade possui custo elevado para a maioria das pessoas, principalmente no Brasil, onde o salário mínimo é mínimo mesmo. Por outro lado, escolher a ilegalidade não é a solução, mas sim a ampliação do problema.
Vitor Miranda
sexta-feira, 27 de março de 2009
Precisamos acender
Não participarei da campanha pelo simples fato de ser, como dizem os que estão participando dela, um ato simbólico. A sociedade em geral está cheia de símbolos e quase sempre eles não são levados a sério.
A faixa de pedestres é, simbolicamente, um sinal a ser respeitado. Nela nenhum veículo poderia parar, principalmente quando o sinal está vermelho. O que se vê, no entanto e infelizmente, são veículos parados sobre ela. Obstrui-se, assim, o já pouco espaço do pedestre no asfalto.
Uma lixeira numa praça é símbolo para que nela se jogue o lixo que geralmente é arremessado na grama ou nas ruas. A maioria a ignora, desrespeitam o símbolo.
Na estrada, uma placa com os dizeres simbólicos “Velocidade máxima 100 km/h” é muitas vezes nem percebida ou ignorada. A fatalidade vem, e o símbolo fica fixado na terra sem nada significar.
As embalagens de cigarros com imagens de fetos, ratos, pernas amputadas e impotência sexual são símbolos chocantes que deveriam sensibilizar os fumantes ou iniciantes. São ignoradas.
A simples ação de aderir ao movimento “A hora do planeta” será apenas mais um símbolo. O que precisamos de fato, são de ações políticas e de prática imediata. O famoso protocolo de Kyoto quando foi assinado, um dos países mais poluentes do mundo, os Estados Unidos, recusou-se a assinar. Era uma ação política e séria que ajudaria muito o meio ambiente. Um ato simbólico, entretanto, é bem mais cômodo.
Enquanto ações políticas não forem bem pensadas e colocadas em prática, o mundo continuará alimentando símbolos que, como a História vem mostrando, serão fracassos e mais fracassos acumulados.
Não é preciso apagar, é preciso acender ações concretas e inteligentes que, realmente, apresentem resultados positivos.
domingo, 18 de janeiro de 2009
A língua ainda é uma pátria

A mudança na ortografia da língua portuguesa não poderia ter ocorrido em momento mais inoportuno que o atual. Considerando que o mundo passa por duas crises, uma econômica e outra ambiental, é no mínimo uma questão impensável colocar em prática essas mudanças, cujo acordo foi selado em 1990.
O Brasil, por exemplo, de ponta a ponta terá que recolher os livros didáticos das inúmeras escolas e substituí-los por outros com a nova ortografia. Numa só ação, já se tem dois agravantes ao país e ao mundo. As cifras usadas para a compra dos livros serão enormes. O Governo gastará valores altíssimos numa época em que gastar, ainda mais dinheiro público, requer muito planejamento, uma vez que a crise financeira global surge ditando regras para que os países não caiam em problemas altíssimos de desemprego, por exemplo. Se falta dinheiro aos cofres públicos, o país não cresce, regride. Além disso, para se fazer os livros, muita floresta diminuirá. Mesmo que se use futuramente a reciclagem dos antigos livros, haverá a necessidade de árvores no chão. O planeta que já está com seu verde na UTI, agravará um pouco mais o quadro.
A unificação da língua não pode ser encarada como o caminho para que o idioma seja único. É impossível ele ser um só. O idioma português como qualquer outro, não fica restrito a letras no papel. Ele faz parte da oralidade e da mistura com linguagens locais e estrangeiras, ainda mais quando se trata de uma nação em que povos do mundo inteiro fazem parte da formação de um povo colonizado.
A língua é um organismo em constante mutação. Sua transformação se dá de modo natural pelos falantes. O “você” que já foi dito de tantas formas, já é usado como “ocê”. Tal modificação não aconteceu devido a vontade de governantes, ocorreu porque o dia-a-dia nos pediu. Esse é um claro exemplo da rapidez do mundo contemporâneo que exige que a comunicação seja rápida também.
Por mais que se busque a união do nosso riquíssimo idioma entre os países lusófonos, ela sempre será incompleta. E isso não é ruim. Acontece que o idioma está preso, entre outras coisas, à cultura local. No Brasil, cueca continuará sendo peça íntima masculina e em Portugal continuará sendo feminina. Embora as palavras possuam mesmo significante (som), são constituídas de significados diferentes. É hilário dizer no Brasil: “Vá para o rabo da bicha”. Em Portugal, entretanto, não. Lá, rabo pode ser usado como final e bicha como fila. Logo, “Vá para o rabo da bicha” em português lusitano quer dizer “Vá para o final da fila”. É um exemplo totalmente cultural de dois diferentes povos que falam uma mesma língua.
Os portugueses são os que mais têm resistido ao acordo, dizem que os brasileiros querem abrasileirar o idioma, eliminando acentos e hífens. De um modo geral, não cabe aos nossos colonizadores pensar que eles são donos da língua portuguesa. Independente das transformações serem boas ou ruins, não é Portugal que baterá o martelo dando a opinião decisiva sobre as modificações na ortografia. Uma vez que um país espalha sua língua oficial em outros países, ele jamais poderá dizer que ainda tem plenos poderes sobre ela. É como o filho que é criado pelos pais e mais tarde atinge a maioridade e torna-se independente. Brasil, Angola, Moçambique são alguns dos filhos criados pela língua portuguesa dos portugueses que, com o passar dos anos e anos, já possuem sua língua portuguesa com muitas modificações em relação àquela que lhe foi imposta.
Embora o acordo ortográfico fique restrito à escrita, é impossível que não se discuta o maior uso da língua, que é na oralidade. Atingir a unificação do idioma é tarefa impossível. O falar das pessoas está condicionado pelo meio que vivem e da cultura que vivem. As diferenças ortográficas têm como consequência a oralidade de cada país. Muito do que é falado vai para o papel. Não podemos nos esquecer de que antes de o homem inventar as regras gramaticais, ele já usava as palavras na oralidade. A invenção de regras foi uma maneira de organizar a língua para que, talvez, ficasse registrada fisicamente. Não se pode, no entanto, ignorar que uma língua registrada é um objeto estático, e só possui valor quando parte para seu uso comunicativo, principalmente na oralidade do cotidiano.
sábado, 17 de janeiro de 2009
Mais do que som

Na mitologia grega, Orfeu tinha o dom da música. Por meio dela encantava os ouvidos humanos e dos animais. Nunca vi Orfeu, mas a arte dele sempre ouço. É difícil imaginar viver num mundo sem música. Já de pequeno, ainda no berço, as primeiras melodias são soadas para que possamos dormir. Sem nada entender, aceitamos a beleza sonora e caímos no delicioso sono pueril, fazendo do mundo apenas um lugar que fica lá fora com a música sendo o escudo que deixa a vida dentro do espaço do berço.
É muito agradável ouvir uma bela música. O prazer vindo dela pode ser pela simples melodia ou pelo casamento da melodia com a letra. Acontece que nos dias de hoje ela não é vista exatamente como uma arte pela maioria de seus autores. Não se pode classificar qualquer tipo de som como música, é cair no erro de achar que japonês é o mesmo que chinês.
Antes de qualquer coisa, a música se propõe a passar ou provocar um sentimento real e permanente. Qualquer ouvido sensível que se depara com Beethoven ou Mozart, mesmo não tendo nenhum conhecimento mínimo sobre música erudita, se rende ao prazer sonoro de suas composições. Uma sinfonia de Beethoven eleva a alma a um patamar impossível de ser medido. Tudo deixa de existir e o corpo torna-se um pequeno átomo revestido de prazeres artísticos.
Por ser uma das mais importantes artes, a música frequentemente nos remete a outras artes. Na minha adolescência, fui um adolescente como a maioria, um cavalo que trotava sem paradeiro num vale interminável e cheio de surpresas. Foi então que conheci duas músicas de uma banda que marcaria a minha formação e continua marcando. Faroeste caboclo e Pais e filhos, ambas do grupo Legião Urbana.
Pela primeira vez na minha vida eu parei para analisar uma música. E foi nessa etapa que descobri que a arte é sentimento. Descobri que a voz misturada com acordes transmitia a ideia de que o mundo era um lugar de grandes valores. A narrativa de Faroeste caboclo sobre um sujeito que sofrera os mais duros golpes na vida, se mostrava como filme, conto, música, pintura... A arte se revelou viva para mim. Poderia ter se manifestado de qualquer forma, mas se manifestou como música.
Pelas músicas da Legião Urbana descobri Manuel Bandeira e Camões, além de partir para Beatles e crescer em mim uma crítica televisiva e consumista. Ouvi, para grande espanto, Geração Coca-Cola. Mais tarde, ao findar minha adolescência, caio na MPB e nela conheço Chico Buarque, Tom Jobim, Caetano, Geraldo Vandré... O jovem da Legião Urbana tinha acrescentado mais arte sonora ao seu mundo.
Mas a música não está só em mim. É inegável a importância dela nas mais distintas culturas. Ela não apenas embala o sono do bebê e desperta um adolescente para a vida, ela carrega por séculos tradições de homens que começaram a escrever a história que escrevemos hoje. As festas juninas só ganham vida na sanfona e nos cantares. Dançamos ao som da música, louvamos a fé pelo canto. O folclore brasileiro é impraticável se a música se fizer ausente de sua base. Bumba-meu-boi não bumba sem o bumbo, e este só deixa de ser um objeto quando dele nasce o som, a música secular.
Em algumas escolas no Brasil ainda se pratica o canto do hino. Muitos só se lembram dele na época da Copa do Mundo, e olha que os homens de chuteira raramente conseguem cantá-lo até o fim. A letra a eles e até a muitos estudantes é matéria de ignorância. O hino nacional é por excelência um dos maiores símbolos de uma nação. Celebramos por música o respeito e orgulho por nossa terra natal.
Podem me chamar de ignorante, mas sempre defenderei a boa música. Não se houve músicas antigas porque se é saudosista, ouve-se porque não há mais a preocupação com a boa letra e melodia na atualidade. Castigar os tímpanos com o som esdrúxulo dos que se dizem artistas é a soma de todas as imbecilidades possíveis. A arte é expressão de sentimentos que jamais devem ser passageiros e inócuos. Ela é expressão permanente que deixa a vida mais bela e melhor de ser vivida.
Vitor Miranda
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
O dono da casa

Imagine a seguinte situação: você tem uma casa de cinco cômodos. Dois quartos, sala, cozinha e banheiro. Num determinado dia, alguém lhe impõe de modo draconiano que sua casa será dividida entre você e outro alguém. Esse alguém fica com os dois quartos e a sua sala. Qual seria seu sentimento e reação?
A situação acima é mais ou menos o que está ocorrendo entre Israel e Palestina desde 1947, data em que a ONU oficializou em terras palestinas o Estado de Israel. A casa, nessa situação, pertence à Palestina.
A guerra que está ocorrendo entre Israel e Palestina tem como fato principal o não reconhecimento por parte dos palestinos de que Israel é um Estado. Ocorre, entretanto, que há aqui uma disputa desleal. Israel, muito bem armada e apoiada por grande parte do Ocidente, principalmente pelos Estados Unidos, bombardeia diariamente o território da fraca Palestina, que nada tem de apoio e armas avançadas.
Por mais que se busque uma resolução justa para a causa, apesar de que raramente há soluções justas para uma guerra, sabemos o destino disso tudo. Israel com um armamento e apoio superiores aos da Palestina, tomará ainda mais territórios pertencentes aos palestinos. Como consequencia, Palestina ficará ainda mais enfraquecida e, numa provável e futura reação como esta que estamos presenciando da Palestina contra os judeus, a fraqueza palestina crescerá. O dono da casa perderá todos seus cômodos, todo seu território.
É difícil entender por que a ONU, criada para ter decisões acima da vontade de uma nação, não toma uma posição justa e explícita. De nada adianta por no papel que pediu trégua aos ataques contra os palestinos, que a cada dia precisam de covas e mais covas, principalmente para crianças e outros civis. A ONU precisa tomar uma atitude prática, de caráter objetivo para que a injustiça promovida pelos judeus de Israel não avance mais.
Apontar que os mulçumanos são terroristas, principais promovedores de ameaças ao mundo, é uma atitude totalmente descabida e infundada. As mortes que um terrorista promove em ataques são as mesmas que a globalização, tão glorificada pelas grandes nações, nos presenteia. O problema é que o sangue derramado em massa pelas bombas terroristas são mortes com causas explícitas. Agora, a ferrenha disputa em que vivemos devido ao sistema econômico que predomina no mundo, provoca mortes quase que indiretamente. Por vivermos numa selva em que não há vagas para todos trabalharem, terem um lar e outras necessidades básicas, disputamos com nosso semelhante um lugarzinho ao sol. Quem não consegue o lugarzinho ao sol procura de outras maneiras sobreviver. Sem trabalho, oportunidade, nasce uma porta para a criminalidade, para a violência. Nela o roubo, o sequestro, o estupro, agressão e o assassinato surgem provocando o mesmo efeito dos terroristas. Sendo um quadro muito bem maquiado as disputas de nosso dia-a-dia, é fácil apontar que o terrorismo mulçumano é ameaça maior ao mundo.
A cultura de qualquer povo deve ser respeitada. O Ocidente muitas vezes não aceita nem suas próprias diferenças, e quando o assunto é a cultura oriental, mais precisamente a dos mulçumanos, aí que essa aceitação é inexistente mesmo. É difícil aceitarmos que do outro lado do mundo há povos muitos diferentes de nós. Não aceitamos o deus deles mas queremos que eles aceitem o nosso. Se eles valorizam a morte, dizemos que eles são loucos. Impõe-se, como quase sempre, mais ou menos como fizeram com nossos índios, a troca do pensar. Tudo que é do outro culturalmente é sem valor, vale aquilo que é meu. O índio não enxerga mais no sol, na lua e na natureza os seus tradicionais deuses. Tudo lhe foi imposto. O mais fraco é obrigado a vender o que é seu sem nada ganhar.
O bombardeio israelita contra a Faixa de Gaza até parece uma vingança de um povo que muito sofreu durante a História. Acontece, no entanto, que estão bombardeando alvo errado por estarem num lugar que não lhes pertence.
O horror do holocausto sensibilizou o mundo durante a Segunda Guerra. Ver a intolerância contra os judeus, seres humanos sendo mortos pelo preconceito e, também, por invasões nazistas em territórios alheios, era inaceitável. A vítima, contudo, parece que virou algoz. O homem é uma criatura que procura aprender com os maus exemplos os maus exemplos, sendo que deveria aprender com os maus exemplos aquilo que não se deve fazer.
Vitor Miranda
Grande sertão: roseano

Falar bem de uma obra de João Guimarães Rosa é chover no molhado, ainda mais quando se trata de Grande sertão: veredas. Depois de quase dois meses, terminei de ler esse único romance de Guimarães Rosa. Ao longo da leitura tive uma alegria e uma tristeza. A alegria se deu pelo início da leitura e a tristeza pelo livro ter terminado.
Grande sertão: veredas é uma daquelas obras que o leitor torce para que não acabe. Cada página, narrada com maestria pelo narrador-personagem e ex-jagunço Riobaldo, é um prazer único e fonte de profundos conhecimentos. A linguagem, a filosofia, a crença, a geografia do sertão e o amor se entrelaçam edificando esse que é um de nossos maiores romances.
Muito se fala sobre o Grande sertão: veredas, mas como comentou comigo certa vez um amigo escritor, são poucas as pessoas que já leram a obra, inclusive professores de literatura e língua portuguesa.
A leitura dela é de fundamental importância para quem realmente aprecia a boa literatura brasileira ou para o profissional da área de Letras. Guimarães nos ensina a geografia do sertão sem se preocupar em ser didático. A naturalidade do espaço sertanejo é posta nas linhas pela linguagem que revela quem é o homem e onde ele está.
Riobaldo ao longo da narrativa ao seu interlocutor, que aparece nomeado por “senhor”, esclarece passo a passo quem foi o grande amor de sua vida, além de discutir sobre a existência ou não do diabo.
Aquilo que envolve sua situação amorosa com Diadorim é digna obra prima de construção literária no âmbito da paixão. Por baixo da dureza da figura do jagunço Diadorim, estão o coração, corpo e alma feminina. Isso passo a passo é trabalhado ao longo de deliciosas seiscentas páginas. O amor por Diadorim, que a princípio era um homem, deixa o jagunço Riobaldo inconformado. Como era possível ele ter se apaixonado por um homem? Mas não era homem, Diadorim era ela. Tal descoberta só ocorre quando Riobaldo não mais pode consumar seu grande amor. Diadorim é morta numa luta com o jagunço Hermógenes. Diadorim era tão sensível que até o nome dela lembrava de um passarinho, como dito por Riobaldo ao longo do texto. O que se pode ver nessa situação, é que o amor de Riobaldo por Diadorim conseguiu enxergar aquilo que os olhos não conseguiram. É o sentimento perfurando regras morais e se mostrando verdadeiro. Riobaldo não amava um homem ou uma mulher, Riobaldo amava Diadorim.
O demônio existe ou não? A dúvida da humanidade também é a de Riobaldo. Ele, entretanto, chega a uma conclusão: o demônio existe nas ações do homem. Assim pensa Riobaldo, que nos apresenta uma multiplicidade cultural para nomear o demônio. Cramulhão, Temba, Coisa Ruim, O-que-nunca-se-ri... e por aí vai. É filosófico pactuar com o demo. Se a alma pertence a Deus, não se pode vendê-la, conclui Riobaldo.
A obra compõe-se também de pequenos “causos” que vão acrescentando ainda mais qualidade às questões principais do romance. É primorosa a história de Maria Mutema, mulher que assassina o marido com chumbo derretido no ouvido e faz com que um padre se mate por ela. Riobaldo narra a história com poeticidade na linguagem, com coloquialismo e neologismos, algo que ocorre praticamente durante toda essa narrativa.
Ler Grande sertão: veredas é mais do que um exercício de leitura. É um aprendizado de vida, é a chance de conhecer um pouco do sertão geográfico para conhecer o sertão que se esconde dentro de nós. Amor, ódio, vingança, esperança, ilusão, tudo está no livro. E se tudo isso está na obra, então se pode concluir, sem nenhuma dúvida, que João Guimarães Rosa escreveu o que é a vida. E a vida se faz pela linguagem.
Vitor Miranda
domingo, 4 de janeiro de 2009
Metamorfose verbal e sonora
Geralmente quando o homem busca o progresso, está buscando melhorias. O automóvel de hoje é mais confortável, o fogão de hoje é a gás, não a lenha; o relógio é digital, não é a corda, enfim, várias e várias transformações ao longo do tempo.
Assisti recentemente a duas entrevistas. Uma foi com o escritor Carlos Heitor Cony, a outra com o músico Kid Vinil, roqueiro brasileiro da década de 1980. Este falou sobre música, óbvio, aquele sobre literatura.
Chamou-me a atenção a opinião de ambos sobre o progresso de suas respectivas áreas, mais propriamente sobre os instrumentos que envolvem a música e a literatura. Sobre a literatura, o instrumento em pauta foi a velha e dinossaura máquina de escrever. Cony falou sobre o imenso trabalho que era a correção dos textos em épocas em que o computador não existia, épocas das Olivetti e outras marcas. Para quem não chegou a conhecer as máquinas de escrever, é bom que saiba que não havia nelas uma tecla que apagasse uma palavra ou letra digitada incorretamente. A tarefa de correção do escritor era feita de modo cansativo. Ou se jogava fora o texto já datilografado e fazia-se a correção, ou rabiscava-se o papel no determinado erro, embora depois o escritor escrevesse novamente seu texto em outra folha fazendo a correção em determinada palavra ou idéia escrita incorretamente.
Era comum o escritor gastar vinte ou mais folhas de papel para conseguir escrever corretamente uma. As pilhas de papel que se formavam eram comuns. Em tempo de consciência ambiental, não seria muito prudente gastar tanto papel assim.
O surgimento do computador fez com que a aposentadoria da máquina de escrever fosse decretada. Hoje com uma tecla se apaga um texto inteiro. É uma revolução que veio a ajudar o escritor e o meio ambiente. Um livro de trezentas páginas feito em uma máquina de escrever derrubava muitas árvores, o que foi diminuído com a utilização do computador para digitar os textos.
Já na música, a evolução não chega a ser tão prazerosa assim. Os discos ou vinis, os chamados “bolachões”, já não são mais usados. Aos poucos foi perdendo espaço para o cd, dvd e o mp3. Hoje é possível baixar músicas na internet antes mesmo de elas chegarem às lojas. Não há mais a expectativa que se tinha em esperar chegar o disco às lojas, fazer filas e garantir o novo disco do Eric Clapton, do Bob Dylan, só para citar dois monstros do pop mundial.
É incontestável a praticidade dos novos formatos musicais, além do fim do chiado nas músicas tornando o som delas mais claros. Mas por outro lado, ocorrem os prejuízos, não especificamente os direitos autorais, isso é uma outra história. Como já citado, há o fim da expectativa da chegada do novo álbum do artista às lojas. Fora isso, se pegarmos o trabalho gráfico das capas dos discos de antigamente, notaremos que tamanha beleza está sepultada. Muitas vezes a capa era um desafio interpretativo. Só para ficar em um exemplo, peguemos uma capa clássica: a do disco Abbey Road, dos Beatles. Nela há a sugestão da famosa lenda sobre a morte de um de seus mais célebres integrantes, Paul Mccartney.
As mudanças não param por aqui, é evidente que até o computador e os novos formatos musicais estão sujeitos a sofrerem mais progressos. O que ocorre também é que a cada progresso alguma coisa boa fica para trás. O grande problema disso tudo é que muitas vezes a qualidade do artista também muda, e para pior. As facilidades geram, em alguns casos, o comodismo. A mente deixa de trabalhar, se esforçar e a boa literatura e música ficam no passado.
O ideal seria que o progresso apenas trouxesse aquilo que realmente é bom, facilidades e bons artistas. Porém, como há sempre os dois lados, temos que saber aproveitar o que surge de positivo e guardar um espaço na memória para a saudade daquilo que se foi e que um dia foi bom, muito bom.
Vitor Miranda
sábado, 25 de outubro de 2008
Metáfora, metáfora...
“Seus olhos são duas pérolas”, “Mariazinha, você é uma rosa”. Tudo bem, as duas frases estão desgastadas há muito tempo, já são clichês inquestionáveis. Mesmo assim, é inegável que possuem uma beleza, chamam a atenção, até porque não existe olho de pérola e não existe uma mulher que é uma rosa realmente. Estamos falando aí da metáfora.
Por excelência, a metáfora é uma representação, uma comparação indireta. Quando o assunto é arte, ainda mais quando é realmente “arte”, é quase certo que o artista faz uso de metáforas. Seja na pintura, na música, na literatura ou no cinema. A metáfora lá está, embelezando a linguagem, dando uma nova roupa a uma expressão. Traz a reflexão e modifica a expressão para transformar a mensagem em arte
Sendo a metáfora uma representação de alguma coisa, resta a nós aceitarmos o jogo e desvendarmos a mensagem. A luta de Dom Quixote contra os moinhos de vento é uma das mais belas metáforas literárias da literatura universal. É claro que os moinhos não eram monstros gigantes, eram metáforas. Representações de várias lutas dos homens contra suas próprias criações. Se Dom Quixote enxergasse nos moinhos apenas moinhos, já não seria arte esta obra de Miguel de Cervantes, seria um amontoado de palavras, sem beleza e reflexão.
Narrar histórias para as crianças sem a metáfora, como seria? Imaginemos. Será que contar a história dos três porquinhos de forma denotativa, considerando a realidade dos suínos, criaríamos a fantasia e passaríamos valores humanos às crianças? Se narrarmos a história de três porquinhos que moram em um chiqueiro, comem lavagem, são sujos e no natal vão para a mesa com uma maçã na boca, descartamos a metáfora e matamos informações e reflexões aos futuros adultos. Agora, se usarmos a metáfora, falaremos de três porquinhos que são bem diferentes entre eles: um não é muito preocupado e faz uma casa de palha para se proteger dos perigos do lobo mau. Um outro que é um pouco mais preocupado, só um pouquinho, ergue uma casa de madeira. O terceiro, este sim, preocupado com a segurança, constrói uma casa de paredes bem resistentes. Narrando a história assim, metaforizamos uma situação e criamos valores e reflexões aos pequenos ouvintes, além de aguçar a fantasia deles.
Picasso ao pintar o quadro Guernica, não teve dúvida: “se quero fazer arte, tenho que usar a metáfora.” E assim fez o espanhol. Com seus traços cubistas, surgiram os traços, um aqui, outro ali, mais um, e outro e eis que, estava pronta a mensagem crítica, artística dele sobre a guerra civil espanhola. Imagens fragmentadas de pessoas e animais, numa clara alusão metafórica da fragmentação do homem em conseqüência da guerra.
Por ser uma representação muitas vezes não compreendida, a metáfora em algumas situações é vista de modo literal. Se ela não é encarada como uma representação, as pessoas olham o quadro de Picasso e dizem que a pintura dele é apenas um monte de figuras quadradas, pés, braços e cabeças separadas do corpo. Ou ainda pensam que os moinhos de Dom Quixote realmente são monstros gigantes.E é justamente isso que vem ocorrendo com o sensacional filme Ensaio sobre a cegueira, do diretor brasileiro Fernando Meireles.
O filme é uma adaptação do romance homônimo do escritor português José Saramago, vencedor do Nobel de Literatura em 1998. A história é sobre uma epidemia de cegueira branca que ataca uma cidade fictícia. O governo isola os contaminados num manicômio abandonado e lá eles passam a conviver em uma sociedade de cegos, sendo que um deles, uma mulher, tem o “privilégio” de enxergar. Ela é a única que não é contaminada. Com poucas pessoas no lugar, a comida é igualmente dividida entre os cegos. Com o aumento de pessoas no recinto, um grupo, munido com arma de fogo, toma posse da comida e começa a negociá-la. O preço, inicialmente, se baseia na troca de objetos pessoais pela comida. Depois, com o fim dos objetos, as mulheres passam a ser o preço. Troca-se comida por sexo. Fora isso, são descritas e mostradas imagens de uma situação em que o homem é rebaixado à sua condição mais primata possível. As fezes, o lixo e cadáveres enfeitam o cenário, ou melhor, representam. São representações daquilo do que somos capazes de fazer. Saramago nos faz um doloroso convite para enxergamos, mesmo cegos, que a modernidade e o progresso apenas ocultam a nossa essência humana.
E por não ser visto como metáfora, o filme de Meireles tem sido muito criticado em alguns lugares. Nos Estados Unidos, por exemplo, uma associação de cegos faz árduos protestos contra o filme. Dizem que é uma obra preconceituosa, que ataca a integridade dos cegos, mostrando que eles são maus, injustos e desprezíveis.
Na verdade, os cegos ianques não estão enxergando a metáfora. Para começar, será que ninguém falou a eles que a cegueira no filme é branca, e não escura? Será que é difícil entender que numa situação como essa o pior cego é o que enxerga? Afinal de contas, a situação toda é vista e sentida por uma mulher. É ela que sofre diretamente os horrores do manicômio e, posteriormente, da cidade.
A arte não é arte sem a metáfora. Para enxergá-la não se usa os olhos, mas a sensibilidade.
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
É preciso apagar
O cigarro é um grave problema para a humanidade. Isso porque gera problemas à saúde e afeta consideravelmente a economia de um país. No Brasil, medidas como a proibição de propaganda comercial do produto foram estabelecidas. Além disso, nas embalagens foram estampadas imagens de pessoas com câncer de pulmão e até de fetos. Tudo para tentar sensibilizar o fumante e o futuro fumante a parar de fumar ou a não começar. Mesmo assim, o consumo de cigarro continua. Por que isso ocorre?O início do fumante com o cigarro geralmente ocorre na adolescência. É nessa idade que o jovem busca distintas formas de provar sua rebeldia, típica da fase. O cigarro gera a falsa sensação de “eu sou dono de mim”. O sentimento de liberdade flameja e encontra no tabaco a maneira de manifestação. O problema é que esse momento de imaturidade e emoção pode se tornar um companheiro eterno, como em muitos casos.
Além da rebeldia como princípio ao mundo do tabaco, há também as influências. As pessoas, várias delas, são facilmente influenciadas por terceiros. No caso do adolescente é ainda pior essa situação. A falta de maturidade é prato cheio para que ele seja seduzido pelas palavras de alguém. Para provar que pensa igual ao grupo ou mesmo provar que os pais não têm controle sobre ele, o cigarro é tragado. Anos depois, a experiência juvenil se manifesta em diversos problemas de saúde e economia.
A saúde, sem dúvida, é a mais afetada pelo hábito do fumo. Um hábito que atinge desde o fumante ao não-fumante.O fumante passivo sem querer é afetado pela ação do tabaco do outro. Ambos são prejudicados e geram custos na área da saúde que crescem a cada ano. Com menos fumantes os gastos com saúde diminuiriam e tais gastos poderiam ser destinados a áreas como a educação ou segurança.
Sabendo que o fumante ingressa no cigarro, na maioria das vezes, na juventude, é necessário que se faça algo urgentemente. Medidas como palestras nas escolas sobre o assunto e maior diálogo entre pais e filhos sobre os malefícios do tabaco seriam um bom início. É inegável que a informação ainda é uma enorme aliada para vencer ou diminuir tão preocupante problema.
Vitor Miranda