domingo, 30 de setembro de 2012

Um perfume que não perde o aroma


Há 20 anos o diretor Martin Brest lançava um dos melhores filmes da carreira do talentoso Al Pacino: Perfume de Mulher.
            No filme, narra-se a história de um homem que acidentalmente fica cego, o tenente-coronel aposentado Frank Slade (Al Pacino). Ele vai a Nova Iorque acompanhado pelo estudante Charlie Simms (Chris O'Donnell) para passar um final de semana. Frank é extremamente amargo com as pessoas e com sua própria vida. Charlie aceita o trabalho temporário porque é bolsista na faculdade onde estuda e está precisando de dinheiro.
            Al Pacino chega a beirar a perfeição nessa atuação. Não é à toa que ganhou o Oscar de melhor ator em 1993 por esta performance. O discurso militar, observado logo no primeiro encontro entre Frank e Charlie, e a representação do que é, de fato, um cego enchem os olhos do apreciador da sétima arte. Pacino esbanja talento em mais de duas horas.
            A crítica áspera de Frank vai a tudo e a todos, inclusive à família. Diz ele a respeito de sua irmã, cunhado e sobrinhos: “Ele é mecânico e ela dona de casa. Ele entende tanto de carros quanto uma miss e ela faz biscoito com gosto de pneu. Quanto às crianças, são umas pestes.” Ora, têm-se aqui um Boca do Inferno? Parcialmente, sim, no entanto, ao longo do filme Frank vai se interessando pelos problemas de Charlie e percebendo que, problemas, todos os têm. Dessa forma, o amargo de Frank vai ganhando gotas de adoçante.
            A intenção do coronel inicialmente é a de se matar depois desse final de semana, pois já não suporta a vida limitada à escuridão. Mas os obstáculos da vida de Charlie e o próprio estudante com sua personalidade, que sai do barro disforme para ganhar formas concretas, afrontam o coronel. Indiretamente o estudante apresenta-se como uma epifania a Frank.
            O notável e inesquecível do filme não é a amargura de Frank, nem seu desejo voraz pelas mulheres, mas sim a cena da desconstrução da fera pela bela. A fera, neste caso, é a aspereza do tenente-coronel, e a bela é a arte do tango, especialmente porque se trata de um dos maiores clássicos de Carlos Gardel, Por Una Cabeza. Na cena, Frank dança com uma belíssima mulher, Donna. A cada passo efetuado pela dupla obtém-se a catarse proposta pelo fatalismo sugerido pelo tango de Gardel.
            O tango dançado por Frank e Donna está, sem sombra de dúvidas, entre as mais belas cenas já produzidas pelo cinema mundial.
            Embora o filme centralize suas potencialidades em Frank, a fotografia não deixa de ser muito bem trabalhada. Ainda no primeiro encontro do tenente com Charlie, o estudante encontra o ex-oficial sentado ao fundo de uma sala com pouca luminosidade. E é justamente na origem da pouca luminosidade do local que temos uma simbologia interessante. Um facho de luz passa pela janela numa clara alusão a uma luz divina, típica das igrejas góticas, para iluminar Frank sentado, todo poderoso e autoritário com o jovem estudante. Nada de sagrado há aqui, porém a ideia de poder não passa despercebida.
            Certamente Perfume de Mulher é um daqueles perfumes que se recusam a perder o aroma em nossa memória cinéfila. Assistir a ele é uma experiência marcante, revê-lo é a confirmação disso.
Vitor Miranda

domingo, 23 de setembro de 2012

Caravaggio no MASP


Conflito, tenebrismo, imposição religiosa, atmosfera negra... enfim, elementos que, ao pé da letra, soam como um afastamento ao prazer. Mas em se tratando de Caravaggio, de arte, a ideia muda.
            Tive o prazer enorme de visitar a exposição “Caravaggio e seus seguidores”, no MASP, e me deparar com beleza estética, narrativa, conflituosa e hipnotizante do “pai” do Barroco. Ao todo são seis obras do maior nome do Barroco.
            Para quem, minimamente, tem em si a sensibilidade, impossível não se impactar com a beleza barroca nas telas de Caravaggio. Os quadros nos levam ao final do século XVI e início do XVII registrando em tenebrismo a qualidade inquestionável desse pintor italiano, além de deixar “claro” (sem eliminar o obscurantismo estético, diga-se de passagem) os conflitos do autor e do homem daquela época. Pode-se dizer que nos pincéis de Caravaggio estava boa parte do sentimento dramático despejado pela Igreja na sociedade daquele momento. Isso se fez em suas telas pelos personagens bíblicos ou não.
             Na exposição do MASP, sem dúvida, as obras que mais despertam admiração do público são a “Medusa” e “São Jerônimo Penitente”. Duas maravilhas que, de imediato, já tematizam um conflito: o sagrado e o profano.
            Caravaggio pinta uma Medusa, em um escudo, já decepada por Perseu. Na imagem, a face da mulher mitológica ganha traços humanos muito bem definidos e, ao mesmo tempo, na tentativa de registrar a dramaticidade da ação, serpentes e sangue jorrado lutam pela atenção do espectador. O escudo onde o autor fez a arte é uma extensão ao mito grego. Na mitologia, Perseu usa um escudo para visualizar Medusa e derrotá-la, pois se olhasse diretamente nos olhos dela, tornar-se-ia pedra. E talvez seja realmente essa sugestão que a obra ambicione. Não temos o escudo de Perseu, e, portanto, temos que olhar a Medusa caravaggesca diretamente. Dessa forma, ficamos petrificados diante tamanha beleza engendrada pelo gênio humano, seja pela história criada pelos gregos ou pelas tintas de Caravaggio.
            “São Jerônimo Penitente” também é um universo de beleza e qualidade estética. Na tela, o crânio iluminado sobre a mesa e a cabeça também iluminada de São Jerônimo (a princípio uma busca por semelhanças) se opõem e, nessa antítese, temos diante dos olhos o básico do mundo: vida e morte. Tal efemeridade se marca e se acentua pelo fundo escuro, sem nada. Não há presença do mundo, não há o que se ver além do homem e seu futuro.
            A fila para ver as seis obras de Caravaggio estava longa. Demorei uma hora e meia para entrar no museu, entretanto, não reclamei, afinal, as obras me esperaram por mais de 400 anos. Aguardar uma hora e meia foi pouco. Reclamar seria uma heresia com condenação inapelável.
            A exposição vai até o dia 30 de setembro. Perdê-la é um pecado, vê-la é uma purificação.
            Vitor Miranda

domingo, 9 de setembro de 2012

"Nem foi tempo perdido..."


O Romantismo notabilizou-se, entre outros, pelo culto ao passado. Para o romântico, o passado é o tempo a ser exaltado, é nele em que os fatos, bons ou ruins, estão alojados. Pois bem, e na noite de 7 setembro último, o meu passado juvenil caminhou ao bar D. Pedro, na rua 7 de Setembro, em Ribeirão Preto, para me trazer um dos integrantes da Legião Urbana, banda esta que configurou completamente a minha vida. Lá estava o eterno baterista legionário Marcelo Bonfá.
            Bonfá distribuiu carisma e nostalgia a todos. Cantou, tocou, bebeu (mas não se jogou na Lagoa como o personagem do Manuel Bandeira).
            De repente, estava ali um músico que alimentou, junto com seus companheiros de Brasília, uma geração e outras vindouras com músicas sentimentais e políticas. Pensei: por que não temos mais bandas e músicos atualmente com essa mística e talento? Sim, mística! A Legião sempre foi uma banda mística, daquelas que você ama e não quer dar explicação por que ama, afinal, amor não tem e nunca terá explicação.
            Sinto-me um privilegiado por ter na minha juventude e formação o talento sonoro da Legião. Ver o Bonfá tocando a menos de 3 metros de mim era algo imaginável. Senti-me uma criança recebendo o presente tão sonhado e pedido. Confesso que, ao ouvir o Marcelo tocando e cantando “Tempo Perdido”, emocionei-me de forma abrupta. Foi minha maior emoção musical até hoje. As lágrimas vieram.
             Nosso cenário musical atual, infelizmente, furta descaradamente a oportunidade de se ter músicas do calibre da Legião Urbana. O que se tem é um padrão minusculamente estabelecido. Não se dá chance para que a qualidade seja o carro-chefe. Democratizou-se a música, mas amputaram o talento (pelo menos na grande mídia). Assim, é facilmente explicável por que ainda aplaudimos de pé Bonfá e outros tantos que vieram das gerações de 60, 70 e 80.
            Por muito tempo estaremos celebrando Chico Buarque, Raul Seixas e Legião Urbana. Comparado a hoje, o passado, indiscutivelmente, distribuía talentos às pencas. O público era mais exigente e, talvez, mais carente em questões políticas.
            Queria que a noite desse 7 de setembro fosse mais longa, porém a ampulheta não para, sua areia escoa sem regras. Ela não se importa se o momento é bom ou ruim. Por outro lado, é bom que o tempo passe. Dessa forma, cria-se o passado e nasce em nosso coração o Romantismo com seus brilhos nostálgicos.
            Diante de todo o Romantismo até aqui exposto e vivido, pego emprestados alguns versos do romântico Casimiro de Abreu e os torno pessoais, meus:

            Oh! Que saudades que tenho
            Da aurora da minha vida,
            Da minha ADOLESCÊNCIA querida
            Que os anos não trazem mais!
Vitor Miranda 

sábado, 4 de agosto de 2012

Modernismo Caipira 2012


Quando um movimento artístico surge com uma proposta artístico-cultural, digamos, bem diferente daquela até então em vigência, o resultado aos olhos do público, inicialmente, é um espanto, um choque. Foi assim com a turma dos Modernistas em 1922 em São Paulo, quando eles se organizaram para uma semana de arte cujas apresentações artísticas eram totalmente opostas e provocadoras ao padrão artístico da época.
            Algo parecido ocorreu nos dias 28 e 29 de julho em Serrana com o festival anual “Caipiro Rock”. Não foi o primeiro ano do festival, foi a 16ª edição. E o que o tornou “primo” do Modernismo Brasileiro foi a ideia de que a arte e a cultura sempre podem mais e nunca cruzam os braços diante do estabelecido.
            Mas por que justamente a 16ª edição se compara com a turma modernista de quase um século atrás? Bem, o festival antes restrito a uma tribo e espaço, resolveu ganhar novos ares e universalizar-se dentro da pequena cidade ampliando seu alcance e temáticas abordadas. Antes limitado a um clube, a uma rua ou mesmo à sede, o CECAC (Centro de Cultura e Ativismo Caipira), o Caipiro Rock foi à principal praça da cidade, no centro. Com isso diversificou-se o público e mostrou a muitos que em Serrana não há apenas chapéu, fivela, botas e “Ai se eu te pego”.
            Festivais como esse são necessários cada vez mais. Vivemos uma cultura de massas que muitas vezes impossibilita a pessoa a, pelo menos, pensar que pode haver algo diferente daquilo que lhe é imposto. É preciso sair da manipulação de setores midiáticos interessados em apenas lucrar, que impedem o senso crítico e atrofiam o nível cultural do cidadão.
            A necessidade de eventos como o Caipiro Rock se torna ainda mais urgente quando se trata de cidades pequenas do interior como o caso de Serrana. Como as opções de lazer e cultura são muito restritas, o pouco que há, geralmente, traz um comodismo intelectual e social. O Caipiro Rock não veio para impor um estilo musical ou ditar normas para se usar essa ou aquela roupa. Ele veio justamente para dizer que não devemos nunca nos contentar e aceitar certos padrões exigidos por terceiros.
            Ainda relacionando os “caipiras” (o termo aqui não é pejorativo) com os modernistas, viu-se no festival a multiplicidade cultural. Embora tenha nascido há 16 anos como evento musical, a carnavalização tomou conta dos dois dias de apresentações. Música (inclusive com folia de reis), encenações, malabarismo, atividades sociais diversas, enfim, opções a uma comunidade que quase sempre esteve fadada ao mínimo cultural.
            Outro aspecto interessante foi o público. Diferentes gerações presentes e de diferentes esferas sociais. Pais que acompanharam o início do festival há mais de dez anos hoje com os filhos, ou seja, exemplo vindo de casa. Reuniram-se o garoto de moicano, a menina tatuada, o de roupa social, o público da bota e fivela e fez-se o “carnaval”. Todos gostaram do que viram? Não se sabe, mas quem deu as caras na praça percebeu que em Serrana há, sim, opções culturais e sociais.
            Fico no aguardo da próxima edição, torcendo para que em 2013 haja o mesmo propósito.
            Vitor Miranda

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Democracia?


Houve um tempo em que as discussões políticas caíam, merecidamente, sobre esquerda ou direita. Deveria ou não implantar o comunismo? Qual modelo seguir, este ou aquele?

Hoje se fala muito sobre democracia. Estudiosos ou não discutem aos berros para que as ditaduras ainda vigentes caiam e o modelo democrático seja imposto. Justo.

No Brasil, temos aqui a tão sonhada democracia. Lutada e conquistada. Mas será que ela realmente se configura como tal? E em outros países, a situação democrática é a mesma?

O problema da democracia em que vivemos, da forma como ela está aí, foi sua elevação ao caráter de intocável. Nós a deixamos num altar e lá ninguém ousa tocá-la. Aí é que está o erro e nosso enorme prejuízo.

Teme-se que forças ideológicas entrem em vários países, mas não se discute o papel real desempenhado pela democracia ilusória presente em várias nações. Aquele que é eleito pelo povo, é meramente uma figura simbólica. As grandes decisões são tomadas em patamares distantes do que se deveriam. Não é o governo que anda tomando a direção do barco. Não é a população que se beneficia com as riquezas do seu país. As multinacionais e o capital especulativo são os que ditam as regras e obtêm as riquezas relegadas ao povo, eleitores.

Rebaixar a democracia ao âmbito em que podemos discuti-la e melhorá-la é uma tarefa essencial para se atingir um melhor governo e diminuir a cada dia o abismo da desigualdade social. Enquanto se pensar na democracia como ideia já consolidada e perfeita, continuaremos sendo prisioneiros e enganados por um sistema que só nos ilude e explora.

A democracia pode ser mais.

Vitor Miranda

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Um segredo argentino


Estar de férias é aquele negócio: os primeiros dias são maravilhosos, puro descanso e nenhuma preocupação com a vida, com a rotina. Após esses dias iniciais, começa a se procurar o que fazer. E ontem, nessa minha procura, fui escolher um filme.
Li algumas resenhas e despertou, entre as lidas, assistir ao vencedor do Oscar 2010 (melhor filme estrangeiro) o argentino “O segredo dos seus olhos.”
Assisti. E que maravilha de filme!
O filme apresenta um caráter policial, afinal já no início se convoca um crime a ser desvendado. A partir daí, o gênero policial se desmembra no lírico, no romântico, no drama e finaliza com um desfecho surpreendente e muito agradável.
Em tempos de acentuação dos filmes de Hollywood, vale a pena sair do mundo dos filmes comerciais e dar uma chance a outros de qualidade inegável. “O segredo dos seus olhos” cumpre justamente com essa obrigação artística a que se dispõe.
Embora com um orçamento baixíssimo para uma produção cinematográfica (cerca de 2 milhões de dólares), o que temos diante da tela é a superação dessa questão que poderia ser um ponto negativo e que, no entanto, é superada por um enredo que se costura inicialmente como clichê (assassinato e criminoso foragido) e termina surpreendendo. Além disso, contribui para arte do filme as grandes interpretações dos atores, principalmente a de Ricardo Darín, que interpreta o oficial aposentado Benjamín Espósito.
Espósito, após a aposentadoria, decide escrever um romance sobre um caso em que ele trabalhou no passado. O passeio pela memória de Benjamín Espósito nos leva ao passado argentino em meio ao governo Perón, estádio de futebol, bares e ruas de Buenos Aires.
As duas horas de filme expondo o que eu escrevi acima, são duas horas que passam realmente voando, tamanha é a genialidade dessa obra. Quem não viu ainda, veja. Não haverá arrependimento.
Já fazia um bom tempo que eu não via um filme desse calibre. Espero que no restante de minhas férias eu encontre outras preciosidades iguais a essa. Um bom filme sempre é bem-vindo.
Vitor Miranda

terça-feira, 20 de julho de 2010

Imbecilidade


- Oi, Imbecilidade. De novo por aqui?

- Puxa, cara! Tenho vindo muito por estes lados. O pessoal anda me convocando bastante.

- Percebi mesmo. Acho que ontem vi você lá perto do centro.

- É bem provável. Atualmente tenho ido a muitos lugares. Sabe como é, as pessoas cada vez mais imbecis e eu cada vez melhor com isso.

- Não pensa em parar de dar as caras? Me sinto muito mal cada vez que te vejo.

- Imagina. Adoro aparecer. Para eu deixar de aparecer, você sabe muito bem que não depende de mim. Quem manda o povo ficar só fazendo asneira?

- Eu sei, mas acho que isso ainda vai durar muito. Aliás, as besteiras só aumentam.

- Adoro tudo isso.

- Claro, é o que te fortalece.

- Ontem mesmo teve um rodeio. Adivinha se apareci? Não perderia por nada ver aquele povo cheirando esterco e alguns burros montando nos cavalos.

- Sei muito bem que adora essas imbecilidades, Imbecilidade.

- Daqui a pouco teremos mais algumas coisinhas do gênero aqui.

- É? O quê?

- Ah, o de sempre. Um pessoalzinho marcou de vir hoje nesta esquina com carros e pôr o som no último. E me parece que mais tarde vão fazer um racha.

- Quanta imbecilidade!

- Sim, sem dúvida.

- Vão correr pra ver se matam ou matam alguém, aposto.

- Isso sempre acontece.

- Mas por que você veio bem antes de eles chegarem?

- Está vendo aquelas pessoas entrando e saindo daquela loja?

- Sim, e daí?

- Olha na mão delas. A maioria com um carnê enorme.

- Entendi. A imbecilidade do crediário.

- Que idiotas. Não suportam uma propaganda lhes dizendo “financiamos em até 60 vezes”.

- Propaganda vende.

- Não, não vende. Ela assalta os imbecis.

- É melhor eu ir indo. Já está quase na hora do jogo da seleção brasileira.

- Você não me engana. Bem que desconfiei.

- Desconfiou? De mim? Do quê?

- Você também é um imbecil.

Vitor Miranda

terça-feira, 13 de julho de 2010

Loucura contemporânea


É comum ouvir por aí “você está louco! Fazer isso é loucura!” Mas, enfim, o que nos permite definir o que é ou não é a loucura?

Dom Quixote era tratado como louco porque acreditava em um mundo em que a palavra e a moral eram os maiores valores humanos. A maioria, porém, não tinha a mesma postura quixotesca dele e por vezes ele apanhava ou era ridicularizado.

Hoje as loucuras mudaram, são outras. Muitos são aqueles que fazem dívidas exorbitantes e se afundam no desespero de ter que cumprir com algo fora, literalmente, de sua realidade. Tamanha loucura tem como incentivo o turbilhão de propagandas diárias despejadas na televisão, internet e rádio que procuram expor ao seu público que para ele poder ser alguém, é preciso comprar, comprar e comprar.

Talvez o consumismo seja a maior loucura do nosso século. E ela é tão grande e perigosa porque acarreta outras consequências além do indivíduo. Atinge o coletivo e põe em risco a continuidade da vida no planeta. Tamanha loucura se concretiza tendo em vista a necessidade dela para alimentar a fabricação daquilo que consumimos em excesso. Os recursos naturais estão a cada dia sendo mais e mais utilizados de maneira desenfreada. Em breve, e isso já se tornou senso comum em dizer, a escassez desses recursos se acentuará drasticamente.

Além disso, a loucura consumista produz a cada minuto avalanches de lixo, uma vez que a cada produto utilizado, sua embalagem, seus resíduos e mesmo seu desperdício se alojam no meio ambiente e interferem negativamente na terra, na água e no ar, e nem é preciso aqui dizer como eles são afetados. O olfato e o paladar nos dão a resposta.

Se a loucura é a fuga da lógica, ninguém poderá negar então que a doença consumista é, sim, uma loucura de proporções apocalípticas. Sair dela e voltar para realidade é função de cada um para que todos sejam beneficiados e não termos um planeta tão cheio de vida como Urano ou Netuno.

Vitor Miranda

domingo, 11 de julho de 2010

Criador e criatura

Em Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, uma das passagens mais memoráveis da obra é a batalha entre Dom Quixote e os moinhos de vento. Trata-se aqui de uma metáfora. Em resumo, era uma luta entre o homem e a máquina, esta vista pelo herói como monstruosos gigantes.

Naquele tempo, o moinho de vento substituía vários trabalhadores que tinham a função de moer o trigo, por exemplo. Consequentemente, esses trabalhadores perdiam seus empregos de “moedores” e deveriam procurar outro trabalho, pois os moinhos eram movidos a vento, não geravam os gastos humanos e, assim, o patrão tinha um bom negócio em mãos.

Quatro séculos depois, temos a mesma luta de Dom Quixote. Os gigantes se multiplicaram com os avanços tecnológicos.

É inegável que a tecnologia nos trouxe enormes benefícios. Conforto, praticidade e maior expectativa de vida, por exemplo, são pontos positivos que mudaram a vida da humanidade. Ocorre, porém, que os aspectos negativos muitas vezes se manifestam de modo ainda mais contundentes do que os positivos.

Um dos grandes pontos ruins da tecnologia está na automatização do trabalho. É comum vermos em vários setores máquinas trabalhando no lugar de pessoas. Os bancos, em geral, estão cada vez mais com um número menor de bancários. Isso ocorre porque um caixa-eletrônico ou serviços via-internet fazem o serviço que antes eram exclusivos dessa classe.

Essa substituição não para por aqui. Guaritas de shoppings centers, lojas vendendo produtos on line e empresas de telefonia com atendimento computadorizado são outras substituições de gente por máquina. Como alternativa alguns defendem que os empregos substituídos geram outros trabalhos para que tais desempregados se empreguem. É claro que outros empregos são criados com o avanço tecnológico, pois se há uma máquina que atende no banco é evidente que alguém a fabricou. Contudo, os empregos gerados pela fabricação de uma máquina como essa, não são proporcionais na mesma medida do número de pessoas que ela pôs na rua. Ao fazer o trabalho de dez pessoas, ela cria no máximo três outros empregos.

A substituição de criador por criatura se acentua com grande rapidez a cada dia pela preocupação maior das grandes empresas, que é o lucro. Vivemos em um sistema que para sobreviver procura sempre diminuir os gastos para que o lucro seja maior. Com isso é evidente que a troca de homem por máquina seja uma ação comum nesse âmbito. Com mais e mais pessoas sem trabalho, o custo da mão-de-obra humana abaixa e a prática do trabalho praticamente escravo se expande. Países emergentes e subdesenvolvidos como os africanos e mesmo a China são exemplos de lugares onde se produz muito e paga-se pouco aos trabalhadores que, entre eles, boa parte é de criança. São essas pessoas que possibilitam ao mercado ocidental produtos de grandes marcas para que seus clientes, por exemplo, usem um tênis da última moda. Financiamos, assim, a exploração do trabalho escravo e infantil.

Mesmo apontando e reconhecendo os benefícios da tecnologia, devemos refletir a seguinte questão: quem ela está beneficiando com conforto, praticidade e maior expectativa de vida? Na verdade, uma minoria da população mundial.

O que abastece a tecnologia é a exploração do mundo globalizado expandindo mais e mais as desigualdades sociais. Os efeitos de tamanha desigualdade e incoerência trarão consequências ainda maiores que o desemprego, isso porque este desencadeia outras mazelas. Desemprego atrai o desespero e em seguida alimenta a violência. Quem não tem, vai procurar obter de outras formas, afinal, é preciso sobreviver.

Não se vê em parte alguma o governo trabalhando com políticas que visam contornar a situação. Elegemos nossos governantes, mas eles não governam por nós. Temos uma democracia fantasiosa. Quem, de fato, dita como deve ser e não ser é o capital especulativo. As multinacionais vêm, fixam-se nos países e dão a sua cartilha para ser seguida. São simples e diretas, ou o governo age de acordo com as ideias que exigem ou vão embora. E o que oferecem? Um número mínimo de empregos para a população e o maior possível para as máquinas, pois estas não criticam o patrão, não têm férias, 13° salário, não engravidam, não vão à justiça ou filiam-se a sindicatos.

Enquanto a ditadura do dinheiro ditar as regras tecnológicas, as classes menos abastadas e sem chances reais de uma vida melhor continuarão engrossando a massa de prejudicados pela tecnologia. Em um breve futuro, não só essa classe será a prejudicada, mas sim todos nós. É preciso que rapidamente os governos e as pessoas em geral acordem para esse perigo e passem a ditar as regras ditas hoje pelas grandes multinacionais. Somente assim poderemos extrair da tecnologia o que ela realmente tem de bom e descartar seu lado ruim.

Vitor Miranda

domingo, 4 de julho de 2010

Ontem e hoje


A tecnologia melhorou a vida de muita gente e também modificou muito nossos hábitos ao longo de anos e anos de descobertas e, consequentemente, progressos tecnológicos. É difícil imaginar a vida moderna sem chuveiro elétrico, televisão e computador, por exemplo.

Por outro lado, em meio a oceanos de tecnologia, perdemos muitas coisas significativas. Diria que perdemos o romantismo em diversos hábitos. Isso ficou bastante evidente para mim ontem, quando estava em uma loja de produtos diversos em frente à seção de cds.

Lembro-me de que na minha juventude havia um gostoso hábito de ter o cd original dos artistas que eu gostava e gosto. Não havia naquela época a pirataria e nem a onda de downloads que hoje estão mais do que sacramentadas na atual geração.

Tenho alguma propriedade para falar sobre esse assunto porque vivi a minha geração e hoje compactuo com a atual fazendo muitos downloads na internet, desde músicas a filmes. Não vou dizer que acho ruim baixar músicas na rede virtual, até porque muitas vezes ela é a única opção para se encontrar álbuns que já estão fora de catálogo há muito tempo no mercado. Pensa que é fácil encontrar o primeiro cd do Chico Buarque ou Bob Dylan nas lojas? Não é.

Mas ontem o sentimento do download desapareceu durante o tempo em que fiquei a pesquisar diferentes cantores e bandas na seção musical da loja. Baixar a música unicamente exclui o sentimento maravilhoso de poder admirar o trabalho gráfico da obra do artista e mesmo ter em mãos todas as letras do respectivo cd. Além disso, é inegável discutir a qualidade do produto vindo do forno da gravadora comparado a uma cópia baixada na internet.

Sei também que há a questão do senso comum em dizer: “cd original é caro, prefiro o pirata ou baixar.” Nem sempre isso é verdade. Comprei ontem a R$9,90 o último cd do Oasis, obra de ótima qualidade musical e gráfica dos irmãos Gallagher. (pena que a banda acabou este ano)

É muito claro que os tempos são outros, como já dizia o grande bardo lusitano Camões “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, mas às vezes é muito bom relembrar o tempo em que download era apenas tema para filme de ficção científica e que ter o álbum dos nossos artistas é motivo de prazer e deleite para os ouvidos e olhos.

P.S.: Guardo com carinho minha coleção original de cds do Legião Urbana.

Vitor Miranda