sábado, 20 de outubro de 2012

Nos bailes do Milton


Na mitologia grega, Orfeu destacava-se por ser um músico de extrema habilidade. Com sua lira herdada de Apolo, conseguia até acalmar as feras mais selvagens. A beleza e harmonia de sua música hipnotizavam mortais e imortais, tamanha a qualidade do que executava. Pois bem, e esse Orfeu, não mitológico, mas humano e mineiro, desfilou seu talento musical em Ribeirão Preto há dois dias. Ele atende há anos por Milton Nascimento.
            Milton Nascimento é um patrimônio cultural brasileiro. Qualquer tentativa de qualificar a sua espetacular voz particular é em vão. Aliada a essa suave voz, estão centenas de belíssimas canções compostas por ele ou em parcerias. Ouvi-lo, ao vivo, é um privilégio e uma grata experiência ao bom gosto musical e aos ouvidos.
            O show em Ribeirão começou com lapsos dignos de um Casemiro de Abreu. Iniciou-se o espetáculo com Bola de meia, bola de gude. Um passeio com palavras e melodia para resgatar na memória a infância e expor que ela adormece em nós (há um passado no meu presente). Aliás, já dizia nosso Machado de Assis que o menino é pai do homem. Milton confirmou.
            Milton Nascimento é um dos raros artistas que atravessam décadas e décadas com o mesmo talento que o consagrou há muito tempo. Chovendo no molhado: “Não é difícil chegar ao topo, mas sim manter-se lá”. E o Milton se mantém, ou melhor, o topo recusa-se a deixá-lo sair.
            De todas as músicas dele, a que mais me emociona e mais gosto é Travessia (diga-se de passagem, trata-se da música de que mais gosto entre todos artistas). Melodia e letra dariam inveja a Orfeu. Travessia apresenta as dificuldades (problemas, frustrações?) da vida e expõe que tais podem ser superadas quando se recusa a fugacidade. O abandono, o saudosismo, a fuga, a solidão, o amor, o abrigo inóspito apresentam-se no caminho de pedra e o sujeito olha para frente e nota que as estradas são múltiplas. Sempre é possível mudar.
            Quem esteve presente no show certamente saiu com mais poesia na vida. E quem suportaria a vida sem poesia?
            Vitor Miranda

3 comentários:

Daniela disse...

Não fui a esse show, Vitor, mas, graças a suas palavras, pude imaginar a beleza e sensibilidade que os que lá estiveram presenciaram e compartilharam.
Beijo,
Dani

Daniela disse...

Não fui a esse show, Vitor, mas, graças a suas palavras, pude imaginar a beleza e sensibilidade que os que lá estiveram presenciaram e compartilharam.
Beijo,
Dani

Vitor Miranda disse...

Obrigado pelas palavras, Dani. E sim, beleza e sensibilidade transbordaram na apresentação do Milton.